-->A Ilusão que Desilude - Educar Saúde

A Ilusão que Desilude

Publicado em 02/06/2010. Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

A Ilusão que Desilude

Nus, diante do espelho, somos exímios em apontar defeitos ao nosso corpo. Aquela imagem reflectida nunca é a que nós desejamos. E vemos inúmeras imperfeições que mais ninguém consegue ver. Todos somos vítimas desta busca de perfeição. Que não existe. Mesmo os menos imperfeitos (ou os que estão menos longe da dita perfeição). Que fazer senão camuflar com a vil roupa (a vergonha imposta por Deus no paraíso), o vil metal ou o vil isolamento os defeitos corporais que se nos apresentam? E com que disfarçamos as nossas imperfeições que não estão assinaladas no nosso corpo, na nossa carne?

Como dissimular a dor, a tristeza, o vazio, a solidão, a angústia, o medo, … enfim, o sofrimento psíquico? A roupa não chega. E dissimular para quem e para quê? Para quem? Para os outros ou para nós mesmos? Pois… iludindo o outro no contrário do meu sofrimento não deixarei de me iludir a mim, ainda que, naquele breve momento, crie também uma breve satisfação que procuro que mitigue a minha dor.

Iludindo-me a mim próprio, vivo a miragem da satisfação desejada, logo é mais rica a transmissão ao outro dessa minha ilusão. Querendo, talvez a última seja mais prática, ao permitir enganar-me a mim próprio por instantes sobre a minha realidade psíquica. Mas não há desilusão sem ilusão. Ou será ilusão sem desilusão? Para quê? Porque sim. Para não se pensar nisso. No isso que nos dói, que nos fere. Se eu penso, eu sinto (mais do que existo!), porque pensar é atribuir sentido, dar significado. A teoria da fuga. Fujo para não sentir o que sinto. Aqui a fuga tem uma função terapêutica súbita, ao omitir as dúvidas e ressuscitar o equilíbrio interno. É que ao colocar a interrogação sobre qual o sentido da minha dor, eu interrogo a minha própria existência. E o que é a minha existência se eu me iludo a mim e iludo o outro? Uma desilusão? Então, se dois mais dois é igual a quatro, a minha existência é igual a uma desilusão.

Não, a vida não é um mar de rosas. Mas existem vidas muito mais cheirosas e mais coloridas que outras. Vidas essas que sabem inspirar das rosas que possuem (que não perfazem um mar) o seu delicioso aroma e encantar-se com as suas cores. As rosas têm cheiro e têm cor. Não são uma ilusão. Agarrar a vida pelos cornos não é, certamente, indolor. Agarrar a nossa realidade interna tal como ela é não é nada fácil, sendo uma tarefa insuportável para muitos. E, desses muitos, quantos sequer a tentam suportar?

Parece ser mais fácil viver em suspensão, ou numa ficção interior, numa inexistência de significado para a existência, numa ilusão que acolhe/encolhe a nossa dor. A dor deixa uma janela aberta para o vazio que procuramos a todo o custo evitar. Mas a dor é uma tensão interna que anda em demanda da sua própria resolução. Porquê iludir a única coisa que nos pode aliviar? O confronto directo com a própria dor. É na génese dessa dor, que nos esforçamos por iludir, que está a solução para não nos desiludirmos connosco próprios.

Questão: como confrontá-la? Só o facto de querer encontrar a dor já é um bom começo para o seu fim, pois enfrentar o que nos dói não é, desenganadamente, para todos. Requer uma boa dose de coragem. E tendo-a, a partir daqui, é só escolher a via para lá chegar. Sozinho ou com ajuda. A clarividência de cada um lhe indicará as suas possibilidades internas.

Entrarmos na escalada desilusão/ilusão pelo sofrimento que varremos para debaixo do tapete é suspendermo-nos a nossa existência, adiarmos a vida em detrimento de confronto com nós mesmos. Uma constante e incessante fuga de nós. Valerá a pena? Reformulando: Valerá a vida?

ANA CARRILHO DE MATOS
Psicicóloga/Psicoterapeuta

Saiba mais sobre:
A informação foi útil? Sim / Não

O texto contém informações incorretas? Está faltando a informação que você está procurando? Se ficou com alguma dúvida ou encontrou algum erro escreva-nos para que possamos verificar e melhorar o conteúdo. Não lhe iremos responder diretamente. Se pretende uma resposta use a nossa página de Contato.


Nota: O Educar Saúde não é um prestador de cuidados de saúde. Não podemos responder a perguntas de saúde ou aconselhá-lo nesse sentido.
Autores
Equipe Editorial

A essência da medicina não se restringe apenas ao diagnóstico e prescrição. A verdadeira missão está em informar, acolher, participar, apoiar e confortar as pessoas em suas dores e sofrimentos. Em ser uma referência técnica e humana em momentos de intensa insegurança e medo.

Todos os artigos desenvolvidos pela nossa equipe editorial são revisados por médicos da sua especialidade, esforçando-nos sempre para ser objetivos e apresentar os dois lados do argumento. Pode consultar a nossa equipe de especialistas Aqui

A nossa equipe concentra-se assim em garantir que o conteúdo, os produtos e os serviços fornecidos pela plataforma mantenham os mais elevados padrões de integridade médica, ajudando a garantir que todas as informações que o usuário recebe, sejam precisas, e baseadas em evidências, atuais e confiáveis.

Para além disso, todo o conteúdo é revisado e atualizado continuamente para garantir a sua precisão.

O processo de atualizações é simples.

Sabemos que os padrões de tratamento para algumas condições, como o câncer e a diabetes (por exemplo) mudam e estão em constante evolução, de modo que, existem conteúdos que devem ser revisados com maior frequência, de forma a garantirmos que a informação existente e recém-publicada reflita sempre as informações mais precisas e atuais. Saiba mais sobre nós Aqui

Se encontrou alguma imprecisão ou erro nos nossos conteúdos, informe-nos através da nossa página de Contato.