Alargar canais curvos com segurança e eficiência – Odontologia – Endodontia

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Alargar canais curvos com segurança e eficiência

“A preparação de canais curvos é conseguida da melhor maneira através de um grande número de pequenos passos que se vão adicionando uns aos outros” diz o Dr. Richard Mounce.

 Todos os canais são mais ou menos curvos. Mesmo os canais que possam parecer rectos nas radiografias têm um certo grau de curvatura nas orientações mesial a distal e vestibular a lingual. Os canais radiograficamente “rectos” são tratados do mesmo modo que os canais obviamente curvos. As técnicas, princípios, e cuidados exigidos são, essencialmente, idênticos. A única diferença entre os dois tipos é que a margem de erro é mais reduzida nos sistemas de canais obviamente curvos.

A obtenção de radiografias digitais a partir de ângulos diferentes (DEXIS, radiografia digital DEXIS, Alpharetta, Geórgia, EUA) pode dar ao clínico uma melhor apreciação pré-operatória da curvatura e dificuldade do canal caso sejam obtidas vestibular, mesial e distalmente. A preparação de canais curvos é conseguida da melhor maneira através de um grande número de pequenos passos que se vão adicionando uns aos outros. A omissão de alguns desses passos na preparação de canais curvos é, de um modo geral, contraproducente. Em termos muito gerais esses passos são:

1 – Criação de acesso em linha recta

2 – Negociação do terço do canal, ou da totalidade do canal, conforme o caso

Na negociação, a utilização de limas manuais pré-curvadas #6 ou #8 pode dar ao clínico uma boa indicação acerca do canal a preparar. Por exemplo, se o canal resiste ao avanço da lima pode existir uma curva acentuada, ou o canal estar calcificado, ou podem ocorrer simultaneamente as duas circunstâncias. É também possível que a lima não seja suficientemente rígida para a condição do canal.

Em qualquer dos casos, uma experiência continuada em dentes extraídos pode tornar o clínico proficiente no que se refere à negociação. Uma raiz que não permita a introdução de limas manuais K #6-10 exigirá muito mais esforço para instrumentar de forma optimizada do que nos casos em que a lima cai rapidamente até à constrição menor (CM) do forâme apical.

3Patência

Clinicamente, assegurar a patência exigirá que uma pequena lima manual K seja previamente curvada com alicates endobender (sybronendo, orange, california, USA) e que passe através da CM, idealmente não mais de um ou dois milímetros. Durante a obtenção da garantia da patência é importante que o clínico compreenda que a CM não deve ser violada seja de que maneira for (ou seja, não deve ser alargada ou transportada, etc.).

4 – Criação de uma via de penetração

A via de penetração está criada quando uma lima manual #15 roda livremente no canal. Logo que a via de penetração esteja criada, o canal está pronto para ser alargado com limas rotatórias de níquel-titânio (RNT). Para canais que sejam inicialmente difíceis de negociar com uma lima manual #6 isto representa uma significativa quantidade de trabalho. O alargamento manual de um canal a partir destes diâmetros mínimos até diâmetros que permitam a utilização de limas RNT pode ser feito de forma eficiente e simples com um dispositivo alternante M4 para a peça de mão (SybronEndo, Orange, Califórnia, EUA). O M4 acopla-se a qualquer porta-acessórios tipo E e é utilizado a 900rpm. De forma rápida, segura e eficiente, um canal que só relutantemente aceitaria uma lima #6, aceitará normalmente limas manuais K #8 ou K #10 após 15 segundos de activação (Figura 1).

Uma lima manual #8 utilizada durante o mesmo período pode alargar um canal para o diâmetro equivalente a uma lima manual #15. Para evitar o ledging e o transporte, a M4 é mais eficaz com limas manuais K pequenas, #6 – #10. É importante que o clínico utilize a M4 com a lima manual estendida até ao verdadeiro, ou ao estimado, comprimento de trabalho, e não limar até distâncias inferiores a estas, para prevenir o ledging. Se a M4 for utilizado da maneira descrita, o risco de consequências iatrogénicas é praticamente inexistente. Uma M4 pode também alargar minimamente um orifício de um canal calcificado para permitir a utilização de um abridor de orifícios para limas RNT.

5 – Utilização de limas rotatórias de níquel-titânio

Desde que o canal seja mantido devidamente patente, irrigado e recapitulado, independentemente da sua curvatura, os instrumentos RNT utilizados correctamente podem alargá-los com segurança após ter sido criada uma via de penetração. Acredito que as limas RTN devem ser utilizadas crown down, ou seja, que o terço coronal deve ser instrumentado primeiro, o terço médio em segundo lugar e, em último lugar, o terço apical. A utilização das limas RNT começando por conicidades maiores e acabando com conicidades menores, e com pontas de maiores dimensões e terminando com pontas menores, constitui o metodo crown down porque cada nova lima penetrará mais fundo no sentido apical, se utilizada deste modo.

A inserção é efectuada passivamente e com suavidade, e a actuação das limas é minimizada a 1 ou 2mm do canal por lima. A lima nunca é deixada estacionária no canal. Utilizo o sistema K3 (SybronEndo, Orange, Califórnia, EUA) devido à sua segurança, flexibilidade, durabilidade, resistência à fractura, eficiência de corte e excelente controlo táctil. Para proporcionar lubrificação em casos vitais e casos necróticos em que haja bastantes tecidos presentes, é aconselhável utilizar File-Eze, um gel viscoso de EDTA para manter a polpa em suspensão e evitar o bloqueio apical. Tenho utilizado extensivamente os motores TCM III e ELECTROtorque TLC (SybronEndo, Orange, Califórnia, EUA e Kavo, Lake Zurich, Ilianois, EUA) para accionar as limas K3. Ambos são opções fiáveis, com gamas diversas de funcionalidades. Faço rodar as K3 a 900rpm com o controlo de torque desligado (Figura 2).

6 – Irrigação

Para a irrigação, utilizo soluções de hipoclorito de sódio a 5,25%, e de clorohexidina a 2% (Vista Dental Products, Racine, Wisconsin, EUA) e SmearClear (SybronEndo, Orange, Califórnia, EUA), utilizadas através de uma abertura lateral e de uma agulha de ponta fechada. O SmearClear é utilizado para 1) expulsar o hipoclorito de sódio ou a clorohexidina, dando lugar à outra solução e evitar a formação de um precipitado quando ambas se misturam; e 2) para remover a lama dentinária, dando lugar a uma obturação RealSeal (SybronEndo, Orange, Califórnia, EUA). Os irrigantes podem ser aquecidos e/ou activados ultrasonicamente.

7 – Recapitulação

A recapitulação, em combinação com a irrigação, pode prevenir a acumulação de detritos durante a instrumentação. Se for permitida a acumulação dos detritos do canal estes podem provocar facilmente problemas iatrogénicos (transporte, fractura de limas, etc.). Num canal curvo e calcificado poderá ser necessário irrigar e recapitular após cada inserção de uma lima RNT. Além da limpeza do canal, os detritos remanescentes podem ser impulsionados apicalmente pelas inserções subsequentes de limas RNT e criar bloqueios inultrapassáveis. 

8 – Repita esta sequência de passos de acordo com o necessário até atingir a CM e termine a preparação até conseguir um diâmetro biologicamente relevante após determinar o diâmetro do canal (avaliando o diâmetro da CM com uma lima manual K – Figura 3). Em resumo, o alargamento dos canais curvos é conseguido da melhor maneira seguindo os passos aconselhados: negociação manual, garantia de patência, uma via de penetração antes da utilização das limas RNT e irrigação e recapitulação que, idealmente, se seguem a cada inserção da lima RTN independentemente da curvatura ou complexidade do canal.

O Dr. Mounce é conferencista internacional e autor de vários trabalhos publicados. Exerce clínica privada em Endodontia em Vancouver, Washington, EUA. Entre outras funções, é consultor endodôntico do Belau National Hospital Dental Clinic na República do Palau, Korror, Palau (Micronésia). Pode ser contactado em richardmounce@mounceendo.com

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