Alterações climáticas e saúde

Revisado por Reinaldo Rodrigues (Enfermeiro - Coren nº 491692) a 12 dezembro 2018

Alterações climáticas e saúde – Urge travar a poluição

O I Fórum Ambiente e Saúde Respiratória, que decorreu dia 31 de Maio, contou com a presença de Francisco Ferreira, membro da Quercus, que sublinhou existirem bons planos de combate à poluição em Portugal, mas com pouca aplicação prática. Já Mário Morais de Almeida, imunoalergologista, reforçou a necessidade de diminuir os índices de poluição, uma vez que o número de doenças do foro respiratório tem vindo a crescer.

As alterações climáticas ganham cada vez mais destaque nas conversas quotidianas. O tema é também abordado em conferências e pela sociedade em geral. Despertar consciências para a necessidade de um uso sustentável dos recursos ambientais e evitar atitudes poluentes são mensagens que os especialistas tentam passar à comunidade. No dia 31 de Maio, as alterações climatéricas e a poluição estiveram uma vez mais em destaque, desta vez focando-se atenções sobre a sua relação com os problemas de saúde. O I Fórum Ambiente e Saúde decorreu em Lisboa e foi organizado pela Fundação Portuguesa do Pulmão em parceria com o Programa Ambiente e Saúde da Fundação Calouste Gulbenkian. Perceber qual o estado do ambiente em Portugal parece ser um ponto de partida para compreender as doenças que podem estar relacionadas com este factor, nomeadamente as patologias do foro respiratório.

Para esse objectivo foi convidado o engenheiro do ambiente e membro da Quercus, Francisco Ferreira. O especialista referiu que, em Portugal, a principal fonte de gases com efeito de estufa (GEE), responsável precisamente por 24 por cento do total emitido em 2007, corresponde à queima de combustíveis fósseis. O mesmo responsável adiantou ainda que já existem no País bons planos de combate à poluição, mas sublinha que o trabalho realizado é muito escasso. “Temos planos a mais e trabalho efectivo a menos”, disse o também professor de engenharia do ambiente da Universidade Nova de Lisboa. E acrescentou: “O trabalho legislativo sobre a poluição atmosférica, as emissões de gases com efeito de estufa e as alterações climáticas já está bastante completo. Falta agora é a vontade política”.

As Alergias aumentam com a poluição
A poluição do ambiente tem ecos em tudo o que nos envolve diariamente. Um dos problemas associados é o aumento do período de vigência de pólenes, o aparecimento em Portugal, por importação de novas espécies de plantas, de novos agentes agressores e em maior quantidade no ar. “A qualidade do ar que respiramos tem influência no nosso aparelho respiratório, daí a importância de patologias como a asma, a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), a rinite alérgica, a conjuntivite alérgica”, comentou o imunoalergologista Mário Morais de Almeida. O especialista que também marcou presença no I Fórum Ambiente e Saúde referiu ainda outros problemas de saúde que podem ser agravados com a poluição. “Ao nível do aparelho mucocutâneo, ou seja na pele, também pode haver problemas.

Obviamente os eczemas atópicos também se agravam condicionados pelo ambiente, a pele torna-se mais seca e irritada devido aos elementos agressores”, acrescentou o médico a exercer no Hospital Cuf Descobertas, em Lisboa, e presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC).

A sessão apresentada por Mário Morais de Almeida teve como título “As Alterações Climáticas e Doenças Respiratórias”. Neste âmbito, o mesmo responsável deu conta de um inquérito feito a 40 mil portugueses, através do qual se verificou que “a prevalência da asma no adulto português situa-se nos oito por cento e no idoso está acima dos dez por cento”. Há ainda um dado relevante relativamente à rinite alérgica: “Outra doença influenciada pela poluição é a rinite alérgica. Neste caso a incidência nas crianças está acima dos 20 por cento, no adulto encontra-se nos 25 por cento e no idoso já atinge os 30 por cento”, disse o especialista, concluindo que são necessárias medidas de adaptação e mitigação. No seguimento deste pensamento, recuou no tempo mais de dez anos para dar um exemplo de como é possível reduzir os níveis de ozono de uma cidade.

“Em Altlanta [Estados Unidos da América], em 1996, decorreram os Jogos Olímpicos. Por este motivo era necessário fazer uma alteração do fluxo de tráfico. Deste modo, reduziu-se o tráfico automóvel no período da manhã em 25 por cento. Em condições climatéricas estáveis, verificou-se que naquela região onde o tráfico foi condicionado houve uma redução do pico matinal de ozono de 28 por cento. Isto aplicado aos ganhos na saúde verificou-se que houve um decréscimo de 42 por cento de recorrência ao Serviço Nacional de Saúde devido a asma”, contou.

Custos terapêuticos
Tendo em conta que há um aumento da prevalência das doenças respiratórias em Portugal, questionámos Mário Morais de Almeida sobre que medidas têm sido tomadas pelo Estado relativamente aos custos dos fármacos associados a estas patologias que, normalmente, são elevados. O especialista respondeu congratulando-se por, no ano passado, o Governo ter decidido aumentar a comparticipação dos fármacos para a asma. “Em relação aos asmáticos, o Governo aumentou a taxa de comparticipação nos medicamentos mais importantes no tratamento destes doentes. No próximo Outono, quando fizer um ano sobre o aumento dessas comparticipações, a medida vai ser analisada e então decide-se se é para continuar ou não. É preciso haver medidores sobre o controlo das doenças, saber se estão mais controladas e por isso vale a pena apoiar mais estas pessoas”, esclareceu o imunoalergologista. O clínico sublinhou, contudo, que “a falta de comparticipação é a regra.

Por exemplo, no caso do eczema atópico, onde o uso de produtos de dermocosmética é essencial, não há qualquer comparticipação, assim como acontece com os imunomoduladores tópicos”. Os hábitos de vida sedentários e o tempo cada vez mais passado dentro de casa pode também contribuir para um aumento das patologias do foro respiratório, uma vez que o sistema imunitário fica mais frágil não estando exposto com frequência aos agentes agressores. “E depois note-se que nem sempre em casa a qualidade do ar também é boa”, sublinha Mário Morais de Almeida. Por este motivo, Francisco Ferreira, da Quercus, recomenda: “por exemplo, de manhã, quando está fresco o dia, devem abrir-se as janelas por um período de tempo, que não necessita ser longo, para fazer corrente de ar. Assim renova-se o ar de forma natural”. O I Fórum Ambiente e Saúde Respiratória lançou ainda o debate sobre temas como “fumo de tabaco ambiental: implicações na saúde humana”, “alterações climáticas e impactos na saúde do Homem” e “impacto das ondas de calor na mortalidade”. Em comunicado de imprensa, a Fundação Portuguesa do Pulmão salienta que “o debate público sobre estes temas é essencial para sensibilizar e desafiar os governos a adoptarem medidas eficazes”.

FUNDAÇÃO PORTUGUESA DO PULMÃO

A Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP) foi criada em 2009. O objectivo desta organização é, em colaboração com outras entidades a actuar na área da Medicina respiratória, desenvolver actividades que contribuam para “a promoção da saúde respiratória e o tratamento, reabilitação e formação dos doentes respiratórios”, esclareceu a FPP em comunicado de imprensa divulgado no âmbito do I Fórum Ambiente e Saúde Respiratória. No mesmo documento são indicadas as linhas de actuação da FPP, nomeadamente as iniciativas “respirar saúde, respirar é viver, conviver com a doença respiratória e estudo da incidência e prevalência das doenças respiratórias”.

O programa de actuação “Respirar Saúde” faz-se junto dos mais novos, com o intuito de promover hábitos de vida saudável que protejam a saúde respiratória. Tal consegue-se “através de acções de formação e informação, em áreas como o combate ao tabagismo e a defesa da qualidade do ar que se respira no interior e no exterior dos edifícios”. A sociedade de um modo geral é o alvo da iniciativa “Respirar é Viver”, que actuará no sentido de “alertar a população para a importância da prevenção, realizar rastreios de despiste das doenças respiratórias e disponibilizar informação correcta e atempada sobre as doenças respiratórias, nomeadamente através da Internet”.

“Conviver com a doença respiratória” é outra iniciativa da FPP. Neste caso, o público-alvo são os doentes respiratórios crónicos, com particular destaque para os socialmente mais vulneráveis. Por fim, a FPP quer ainda ter um papel activo na realização de estudos da incidência e prevalência das doenças respiratórias devido “à necessidade de existência de um grande estudo de âmbito nacional, preferencialmente prospectivo e transversal, das doenças respiratórias em Portugal”.