Bebés e Crianças – Dias de sol em segurança!

Revisado por Reinaldo Rodrigues (Enfermeiro - Coren nº 491692) a 12 dezembro 2018

Bebés e Crianças – Dias de sol em segurança!

O nível de exposição solar durante a infância e as agressões sofridas em consequência da mesma são determinantes para o risco de melanoma maligno na idade adulta. Perante tal evidência e face à incidência crescente de cancro cutâneo, é essencial que a farmácia desempenhe um papel activo na sensibilização de pais e educadores para a importância da protecção solar, contribuindo também para fomentar nas próprias crianças hábitos de convívio saudável com o sol.

Para aproveitar o que o sol tem de melhor, há que fazer uma escolha cuidadosa dos momentos do dia favoráveis para as actividades ao ar livre e um uso adequado de todos os recursos que contribuem para uma eficaz protecção e que permitem usufruir dos dias de sol em segurança.

A radiação solar e a pele da criança
Da totalidade da radiação solar que atinge a terra, apenas 5% corresponde à radiação ultravioleta (UV), no entanto, praticamente todos os efeitos positivos e negativos do sol ao nível da pele são devidos a este tipo de radiação. Entre os efeitos positivos contam-se o efeito anti-raquítico, mediante a estimulação da síntese de vitamina D, e a acção antidepressiva. Já como efeitos negativos, há a considerar o eritema actínico ou queimadura solar, a hiperplasia epidérmica (espessamento da pele), o efeito imunossupressivo, o envelhecimento cutâneo (heliodermia) e a carcinogénese.

As crianças são mais susceptíveis aos efeitos nefastos da radiação UV
– a sua pele tem menos fotoprotecção natural em virtude de apresentar um filme hidrolipídico menos rico, camada córnea mais fina, células menos coesas e menor quantidade de melanina, o que facilita a penetração da radiação solar. Acresce o facto de, na infância e adolescência, os melanócitos serem mais sensíveis à radiação solar, podendo a exposição aguda resultar em alterações ao nível do DNA com consequente formação de “sinais” (nevos) instáveis os quais podem, mais tarde, tornar-se malignos.

O sol e a pele da criança
A exposição da pele à radiação UV resulta em danos visíveis e invisíveis. A queimadura solar é um tipo de dano visível que se manifesta poucas horas após a exposição solar. Em algumas pessoas esta mesma exposição também causa o bronzeado. O bronzeado resulta SEMPRE de uma agressão à pele e traduz uma resposta fisiológica à exposição solar com o objectivo de aumentar a protecção face à mesma. O bronzeado ocorre quando há penetração dos raios UV na epiderme causando inicialmente escurecimento do pigmento presente na pele – melanina – e, com o prolongar da exposição ao sol, aumento da sua produção.

As sardas, mais comuns em pessoas de pele clara, surgem quase sempre como uma manifestação de um dano causado pela exposição solar e o seu surgimento revela a necessidade de protecção solar mais intensa. Sempre que a exposição à radiação solar é suficiente para resultar em bronzeado, é também suficiente para causar danos irreparáveis ao nível das estruturas da pele. Estes danos são cumulativos e não só aceleram o processo de envelhecimento cutâneo, como aumentam o risco de cancro cutâneo.

As queimaduras solares graves podem contribuir para o desenvolvimento, alguns anos mais tarde, do mais grave tipo de cancro cutâneo, o melanoma. O melanoma pode desenvolver-se em todos os grupos etários, incluindo nos adolescentes ou nos jovens adultos. Embora outros factores de risco, como sejam a existência de lesões precursoras, a idade, a história familiar ou o tipo de pele, sejam mais determinantes na predisposição para melanoma do que a ocorrência de queimaduras solares, a exposição à radiação solar é o único factor de risco evitável.

Cuidados gerais na exposição solar
Para além da importância que reveste o uso correcto dos protectores solares, existem cuidados gerais de exposição solar que importa cumprir:
• evitar a exposição solar entre as 11-17 horas, idealmente entre as 10 e as 18 (a exposição deve ser feita em alturas em que a sombra de um indivíduo é superior ao seu tamanho);
• usar roupa adequada, que confira protecção;
• renovar a aplicação do protector solar cada 2 horas;
• usar óculos escuros, que refiram bloquear 99% da radiação UV ou absorção da radiação UV até 400 nm;
• beber água com frequência durante os períodos de exposição.

Cuidados a ter em caso de queimadura solar
• Manter a criança à sombra até a queimadura solar estar curada e a pele recuperar o tom normal;
• Dar à criança um banho com água tépida (não fria);
• Cobrir as zonas mais vermelhas com compressas molhadas para aliviar a dor e o calor;
• Aplique um creme hidratante ou um gele de aloé vera em toda a zona atingida;
• Dar à criança muitos líquidos, para evitar que desidrate;
• Em caso de dor dar um analgésico, como paracetamol ou ibuprofeno;
• Em caso de bolhas levar a criança, o mais rapidamente possível, ao médico e, até lá, evitar que as rebente porque pode provocar uma infecção.

A protecção solar na criança
De um modo geral, na criança, a regra é evitar a exposição solar, o que não significa que não saia de casa. Quando a exposição solar for inevitável, a protecção em crianças passa antes de tudo pelo respeito estrito das horas de exposição e pelo uso de roupa adequada, chapéu e óculos escuros, permanecendo o máximo de tempo à sombra. Em particular, crianças com menos de 6 meses devem ser sempre mantidas à sombra até porque, tendo em conta a sua reduzida mobilidade, não são capazes de sair por si próprios da exposição à luz e calor intensos, por mais desconforto que estes lhes causem.

Acresce que, até aos 6 meses de idade, a pele é mais permeável aos filtros solares e os mecanismos fisiológicos de metabolização e excreção são imaturos. Por este motivo, é de evitar o uso dos protectores solares. Ainda assim,
algumas sociedades médicas defendem que, não havendo provas de efeitos a longo prazo resultantes do uso de protectores solares em pequenas áreas da pele dos bebés, estes devem ser usados, nas zonas expostas como as costas das mãos e a face, sempre que o recurso a outras formas de protecção como a sombra e o vestuário se revele insuficiente ou não seja possível.

A maior sensibilidade e permeabilidade da pele torna-a mais susceptível a alergia de contacto que pode surgir com os filtros orgânicos. Assim, até aos 3 anos devem usarse preferencialmente protectores apenas com filtros inorgânicos, que não são absorvidos. Mais uma vez, o uso de protector solar deve ser limitado às áreas expostas, não protegidas através do vestuário (face, pescoço, antebraços e pernas). Há que ter em atenção que, mesmo à sombra, quando as superfícies circundantes são altamente reflectoras (como é o caso da areia ou da água) a exposição à radiação UV pode só ser reduzida em 50%, mantendo, assim a necessidade de protecção extra.

O vestuário
O uso de vestuário adequado é a forma mais simples e prática de protecção solar. A protecção conferida pela roupa depende da cor, da textura e da espessura dos tecidos. As cores escuras são mais protectoras que as claras, mas têm o inconveniente de absorver radiação infravermelha, tornando-se muito quentes no Verão. Os materiais que conferem maior protecção são o algodão, a seda e o polyester. Independentemente do material em causa, deve optar-se por tecidos de malha apertada que deixem passar o mínimo de radiação. Uma boa forma de o avaliar é colocando o tecido contra a luz e verificando a quantidade de luz que deixa passar.

Em condições em que o nível de exposição solar seja tal que o risco de queimadura solar seja eminente, o ideal é vestir as crianças com calças e mangas compridas recorrendo a roupas de tecidos leves mas que confiram protecção UV eficaz. É importante não esquecer que a roupa húmida, quer por água quer por transpiração, vê a sua eficácia, enquanto filtro solar, significativamente reduzida. No que diz respeito aos chapéus, são de preferir os que têm abas largas, tipo panamá, ou alternativas que confiram idêntica protecção às orelhas, nariz e pescoço. Existe actualmente no mercado roupa feita com material reflector UV. Este material apresenta uma elevada protecção solar devido à malha apertada.

A sua capacidade de protecção não é influenciada pela cor ou pelo grau de humidade. De acordo com a norma europeia EN 13758, este tipo de vestuário, para ser eficaz, deve cobrir o tronco, pescoço, ombros, 3/4 dos braços e da cintura aos joelhos. O UPF tem, necessariamente, de ser superior a 40, com transmissão UVA ‹5%. O Rótulo Ultravioleta – UV Standard 801 resulta de uma associação de vários institutos europeus. O método utilizado para avaliar as propriedades de protecção dos tecidos, de acordo com a norma que o atribui, é o mais completo. Determina o grau de protecção do tecido quando exposto à radiação UV no seu estado original, após ser envelhecido usando ciclos de abrasão, lavagem e tensão, e ainda em húmido. O valor a indicar na etiqueta é o mais baixo encontrado nos diferentes ensaios.

Os protectores solares
Os protectores solares protegem contra os efeitos agudos da radiação UV, conferindo alguma protecção contra os efeitos crónicos, como o fotoenvelhecimento. O seu uso regular diminui o número de lesões pré-neoplásicas, podendo prevenir o aparecimento de certos tipos de cancro da pele. O seu efeito na prevenção do melanoma maligno é ainda controverso. Por isso mesmo, não devem ser vistos como protecção bastante mas como parte integrante de um conjunto de atitudes e medidas de protecção solar.

É recomendável que, sempre que seja de prever exposição solar, no Verão ou no Inverno, mesmo em dias nublados, seja aplicado um protector de largo espectro e com um factor de protecção no mínimo de 15. Os protectores solares devem ser aplicados 15 a 30 minutos antes da exposição solar, para permitir a melhor absorção. Deve ser usada uma quantidade suficiente para cobrir integralmente todas as zonas expostas (a maior parte das pessoas aplica apenas 25 a 50% da quantidade de protector que deveria), com particular atenção para a face, orelhas, pescoço, ombros, braços e mãos.

Os lábios não devem ser esquecidos, sendo de preferir a utilização de um batom ou stick com factor de protecção igual ou superior a 15. É importante reaplicar a cada duas horas ou mais regularmente em caso de sudação intensa ou de brincadeiras na areia que possam levar à remoção do protector. Também após cada banho de mar deve repetir- se a aplicação do protector. Mesmo os protectores resistentes à água perdem a sua acção após um determinado período de imersão na água. Os protectores “à prova de água” têm comprovada a manutenção da sua eficácia mesmo após 20 minutos na água e os “resistentes à água” resistem entre 40 e 80 minutos.

Também ao secar a pele com uma toalha acaba por remover-se o protector. A escolha da forma galénica depende
da zona a proteger, sendo os cremes bem adaptados à face e os leites ao resto do corpo. Os sprays, apesar da sua facilidade de aplicação, não garantem uma cobertura tão uniforme e na quantidade necessária, da totalidade da pele a proteger.
 
Conclusão
A infância é um período crucial da educação para a exposição solar pois os comportamentos da idade adulta são muitas vezes adquiridos nesta altura. A criança é mais permeável ao que lhe é transmitido e, no seu dia-a-dia, a exposição solar é importante pela presença de actividades lúdicas e desportivas ao ar livre. Estes factores tornam as crianças alvos por excelência de qualquer iniciativa que promova bons hábitos de convivência com o sol.

A fotoprotecção da criança representa hoje um imperativo de saúde pública. A educação da criança e da sua família por parte de todos os profissionais de saúde no sentido da sensibilização para a importância de uma fotoprotecção adequada constitui o melhor meio para controlar o aumento exponencial dos tumores cutâneos fotoinduzidos, em especial o melanoma maligno na idade adulta.

Desmistificar Mitos
• A quantidade de radiação UV necessária para a síntese de vitamina D pelo organismo é mínima não exigindo exposição directa ao sol
• Crianças à sombra não estão protegidas da radiação solar – a radiação solar é reflectida pela areia (20%), pela água e pela relva (5%) ou por qualquer outra superfície clara
• Mesmo com o céu nublado é necessária protecção – as nuvens deixam passar 60% – 80% da radiação UV
• Usar uma t-shirt de algodão é uma boa protecção desde que não esteja molhada – quando molhada permite a passagem de até 50% da radiação UV
• Embora o vidro bloqueie a radiação UVB, cerca de metade da radiação UVA é capaz de atravessá-lo.

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