Cápsula Endoscópica

Revisado por Andre a 28 outubro 2018

Nova tecnologia ao serviço da saúde: Microcâmaras percorrem o aparelho digestivo (Cápsula Endoscópica).

A gastrenterologia, área da medicina que se dedica ao diagnóstico e tratamento de doenças do tubo digestivo, tem vindo a sofrer avanços progressivos com o desenvolvimento das técnicas de endoscopia digestiva. Desde o início da era endoscópica que os médicos pretendem obter a visualização do tubo digestivo em toda a sua extensão, desde o esófago até ao recto. De facto, facilmente observamos hoje o tubo digestivo alto e o intestino grosso através, respectivamente, da endoscopia alta e da colonoscopia. No entanto, o intestino delgado tem permanecido um órgão de difícil acesso por estas técnicas, pelo facto de ter uma localização intermédia, estar distante de orifícios naturais de comunicação com o exterior, ser muito longo e ter uma configuração complexa.

Apesar de terem surgido endoscópios maiores e cada vez mais sofisticados e dos médicos se terem aperfeiçoado muito no desempenho das técnicas endoscópicas, a verdade é que, até há bem pouco tempo, só era possível explorar as primeiras e últimas ansas do intestino delgado por endoscopia. Assim, para estudar o delgado, os médicos têm utilizado habitualmente um exame radiológico convencional, o trânsito intestinal, que sendo útil para a detecção de lesões protuberantes para o lúmen, como sejam as lesões polipoides e os tumores volumosos, tem fraca sensibilidade para a detecção de lesões malignas planas e de menores dimensões, bem como de malformações vasculares, erosões, ulcerações, entre outras.

Outros exames têm sido utilizados para estudar o delgado, como a tomografia axial computorizada e a ressonância magnética nuclear, mas são exames muitas vezes difíceis de tolerar, que sujeitam o doente a radiações e de difícil interpretação. Na forte suspeita de lesão do intestino delgado, por vezes os médicos têm mesmo que optar por métodos cirúrgicos com morbilidade e mortalidade não desprezíveis. Por tudo isto, é fácil compreender que o intestino delgado tenha permanecido um “local misterioso”, provavelmente responsável por muitos sintomas referidos pelos doentes e que, dado o relativo desconhecimento deste órgão, permanecem por tratar adequadamente.

Nos últimos anos, no entanto, novos horizontes se abriram para a exploração do intestino delgado e para o adequado estudo de patologias deste órgão. No ano 2000 começou a comercializar-se uma cápsula equipada com uma câmara e que foi posta à disposição dos médicos juntamente com uma estação de tratamento das imagens recolhidas pela câmara. Desde então, tem tido ampla aceitação graças à sua elevada eficácia diagnóstica para o intestino delgado, sendo muitos os grupos que trabalham para um melhor conhecimento e aproveitamento desta técnica. Portugal e Espanha têm tido o mérito de participar activamente nestes grupos, com a realização anual de reuniões Ibéricas desde 2003. No entanto, só um grupo ainda restrito trabalha com esta técnica em Portugal, pelo que é uma das áreas da gastrenterologia muito promissora, justificando o interesse actual.

Para a realização deste exame é necessária a cápsula específica, um gravador e uma estação de trabalho. A cápsula é um cilindro com 11x26mm, com peso aproximado de 3,7gr, que é ingerida facilmente pelo doente, como quem ingere um simples comprimido, após 12 horas de jejum. A cápsula capta 2 imagens por segundo e tem uma bateria activa para cerca de 8 horas. As imagens são recolhidas por um conjunto de sensores que se colocam sobre a pele do abdómen do doente e transmitidas para um gravador. Depois das 8 horas de gravação o sistema de sensores e o gravador são desconectados e transfere-se a gravação para uma estação de trabalho, sendo o exame posteriormente visualizado por um especialista. Durante o exame, o doente pode realizar a maior parte das suas actividades diárias, incluindo profissionais, com poucas restrições. A cápsula ingerida é arrastada pelo tubo digestivo de forma passiva pela gravidade e peristaltismo e, depois de inactiva, é naturalmente eliminada com as fezes. Este exame tem assim a vantagem de ser fácil, seguro, indolor, sem necessidade de anestesia, radiação ou preparação prévia e praticamente isento de complicações.

Por tudo o que foi dito, facilmente nos apercebemos que o exame endoscópico por cápsula veio revolucionar o estudo das doenças do intestino delgado. No entanto, esta aventura de exploração do tubo digestivo por cápsula não parou e, rapidamente, outras cápsulas surgiram, como a cápsula para estudo do esófago e, mais recentemente, a cápsula do cólon, embora esta última não esteja ainda comercializada no nosso país. Sendo assim, poderá vir a acontecer, num futuro bem próximo, que o gastrenterologista tenha possibilidade de eleger, entre as várias cápsulas que exploram diferentes segmentos do tubo digestivo, a que mais se adequa a um determinado propósito. Isto não quer dizer, no entanto, que a endoscopia por cápsula venha a substituir as técnicas endoscópicas convencionais, que seguramente continuarão a manter-se úteis, sobretudo no campo terapêutico.

O nosso conhecimento aumentou… é possível viajar hoje, com uma simples cápsula, pelos recônditos mais profundos do tubo digestivo!

Vídeo demonstrativo sobre funcionamento da Enteroscopia do intestino delgado por Cápsula endoscópica com aparelho Mirocam.