Casta Alicante Bouschet

Revisado por Equipe Editorial a 22 outubro 2018

A Casta Alicante Bouschet já pode ser considerada a mais nobre do Alentejo.

A Alicante Bouschet tem um longo historial no Alentejo, mas só nos últimos anos é que recebeu o estatuto de casta mais adequada a esta região.

Está agora associada ao Alentejo da mesma forma que a Malbec está para a Argentina, a Shiraz para Barossa Valley, a Carménère para o Chile, etc.

Esta especificidade regional acontece em grande parte devido à sua adaptabilidade a climas quentes e, com as mudanças climáticas e aquecimento global em curso, a sua importância para o Alentejo não deve ser desvalorizada.

Após anos de utilização no Esporão, sou um grande apreciador da Alicante Bouschet, mas nunca esperei encontrar-me nesta posição – quando estudei enologia na Austrália, a Alicante era apresentada como uma casta francesa de baixa qualidade e, como tal, colocava-a no fundo da minha lista em termos das melhores castas internacionais de uva.

Assim sendo, qual é o pano de fundo desta casta? É uma tintureira, o que significa que tem polpa e sumo escuros, o que é bastante raro.

Foi criada por um professor de viticultura francês, Pierre Bouschet, ao cruzar as castas Grenache e Petit Bouschet, em 1865. Ainda é utilizada na região de Languedoc para adicionar cor aos vinhos tintos locais, mas em França goza geralmente de uma reputação modesta e foi retirada da maioria das regiões vinícolas.

A questão é que, sendo muito produtiva na vinha, resulta em colheitas de até 20 toneladas por hectare, e os vinhos resultantes são leves, com baixo teor de álcool e alta acidez – contudo, devido ao seu mosto de cor concentrada, é muito usada em vinhos multicastas.

A Casta Alicante Bouschet foi introduzida no Alentejo no final dos anos 1880, pela família Reynolds da conhecida Herdade do Mouchão, que detém as mais antigas vinhas desta variedade em Portugal.

Foi associada desde sempre à Mouchão e, mais tarde, aos vinhos tintos da Quinta do Carmo, pelo menos até esta adega ser comprada pelos Rothchild nos anos 90.

Devido à sua pouca consideração pela casta, esta foi removida das vinhas e, na minha opinião, os vinhos nunca mais foram tão bons desde que tal aconteceu.

Alguns dos meus vinhos favoritos quando vim para Portugal, nos anos 80, eram os vinhos Mouchão dos anos 60 e os vinhos do Carmo dos anos 70.

Por isso, quando comecei a trabalhar com o Esporão nos anos 90, uma das primeiras coisas que mudei nas vinhas foi plantar Alicante Bouschet, já que não tínhamos nenhuma na altura. Aumentámos agora as nossas plantações para cerca de 50 hectares.

A Alicante Bouschet é uma casta vigorosa na vinha, com folhas verde-escuras características, altamente produtiva, de amadurecimento tardio, e com uvas de casca grossa que são bastante resistentes às doenças.

Se a capacidade da co­lheita for reduzida para níveis razoáveis, cerca de seis a oito toneladas por hectare, podem ser produzidos vinhos intensos, bem estruturados e com grande longevidade, graças aos bons níveis de acidez e alto conteúdo fenólico (cor e taninos).

Pode produzir um magnífico vinho monocasta, mas também é bastante útil em multicastas – usamos cerca de 40% em combinação com Syrah e Aragonez no nosso tinto Private Selection.

Para além do factor de longevidade, a casta tem ainda características complexas, quase rústicas de amora, solo, especiarias e couro.

Gosto de envelhecê-lo em carvalho americano, uma vez que acrescenta suavidade, complexidade e cremosidade a um palato bastante coeso.

Normalmente, a Mouchão envelhece-o por longos períodos de tempo em grandes pipas de carvalho antigo para que suavize e amadureça antes de o engarrafar.

Para além dos já mencionados Mouchão e Esporão, a adega Dona Maria é um excelente exemplo de como se pode produzir vinho a partir da Alicante Bouschet (Júlio Bastos), ao mesmo tempo que utiliza a casta no seu vinho de topo, o Amantis.

Luís Duarte, da Herdade dos Grous, tem um vinho chamado Moon Harvest, que é baseado nesta casta, e o Grande Rocim, o vinho de topo da Herdade do Rocim, tem 90% de Alicante na sua composição.

Esta é também uma parte importante dos fantásticos vinhos da Quinta do Mouro.

Na verdade, quanto mais olhamos para os rótulos de alguns dos mais conhecidos vinhos tintos multicasta do Alentejo, mais facilmente encontramos esta fantás­tica casta de uva mencionada.

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