Cerro Rico (Potosí, Bolívia), Fotos

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Com cerca de 4800 metros de altitude, o Cerro Rico pode ser observado a partir de quase qualquer ponto da cidade. A torre da igreja de San Francisco, um dos melhores miradouros de Potosí, proporciona uma notável perspectiva sobre o monte e os bairros periféricos habitados pelos mineiros.

O Cerro Rico – que alguém designou como “a montanha que engole homens” – chegou a ter seis centenas de minas em exploração, não estando abertas, actualmente, mais do que cento e vinte. Nelas trabalham diariamente quase sete mil mineiros, entre os quais algumas centenas de crianças, não obstante a interdição legal.

Pouco rentável, a exploração das minas foi sendo entregue na última década a cooperativas de mineiros que não detêm nem meios de investimento nem crédito bancário para os equipamentos necessários. As condições de trabalho são, por consequência, extremamente difíceis, e o cenário em algumas delas não difere do que caracterizava a exploração das galerias nos tempos coloniais. Algumas das minas dessa época foram, aliás, reabertas, e delas se extrai uma mistura pobre de zinco, estanho e prata.

Não há luz eléctrica nem elevadores, nem sequer compressores de ar, o escoramento das galerias é precário e os métodos de extracção assaz rudimentares. O ar é pesado e quase irrespirável. Por outro lado, não são raros os acidentes mortais provocados por desabamentos.

Os viajantes mais aventureiros podem, contudo, viver a experiência de uma jornada (com alguns riscos) dentro de uma das minas. A visita dura normalmente cerca de três horas e é realizada em pequenos grupos, acompanhados por um guia. Começa-se por preencher uma declaração em que o voluntário assume a responsabilidade de eventuais danos (“injury or death”, diz o papel), pagando-se no acto dez dólares pelos serviços do guia, frequentemente um antigo mineiro. É o caso de Juan Mamani, da Koala Tours, que conduz habitualmente os visitantes através da mina da Candelaira, uma das 17 exploradas pela Cooperativa Unificada.

Primeiro passo: passagem pelo mercado que abastece os mineiros e onde os excursionistas radicais são convidados a adquirir alguns presentes. Explosivos, rastilhos e sobretudo líquidos – água, refrigerantes e álcool a 96 graus são algumas das ofertas mais esperadas pelos mineiros extenuados e sedentos que se irão encontrar ao longo da visita. Imprescindível – e obrigatório – é também o equipamento de que todos os visitantes se devem munir: fato de mineiro, botas de borracha, capacete e lâmpada alimentada por uma bateria. Depois, um jipe assegura o transporte por uma estrada sinuosa até cerca de 4300 metros de altitude, cruzando pelo caminho um controlo policial que procede à verificação das declarações de responsabilidade assinadas pelos turistas aventureiros.

A entrada na mina faz-se por um dos flancos da montanha. Caminha-se quase quinhentos metros por um túnel que se vai estreitando cada vez mais até se tornar necessário rastejar. Há que desatar a correr, uma ou outra vez, para procurar um abrigo sempre que da escuridão, lá adiante, se escuta o ruído de um vagão aproximando-se rapidamente. Antes de se descer ao segundo nível, um pequeno museu instalado numa galeria iluminada mostra alguma iconografia relacionada com a actividade e o imaginário dos mineiros. El Tio é, sem dúvida, o personagem capital, uma figura sincrética que representa o diabo, que os mineiros veneram e a quem oferecem ritualmente cigarros, coca ou álcool, para invocar a sua protecção.

No segundo nível, sempre em direcção às entranhas do monte, caminham-se mais cento e cinquenta metros. O ar torna-se cada vez mais irrespirável, o oxigénio rareia e a temperatura sobe a mais de trintas graus. O esforço tem, então, de ser rigorosamente controlado, e a pequena máscara destinada a proteger da densa poeira de forte odor a pólvora acaba por se transformar num empecilho para a respiração. Pelo caminho encontram-se toupeiras ou sombras que escavam os intestinos da terra por quase nada, pequenos grupos de mineiros atirando pazadas de minério para dentro dos vagões. O calor é sufocante e, no negrume das galerias, espectros bebem com sofreguidão a água que lhes é oferecida. Bem-vindas são igualmente as folhas de coca que costumam mastigar durante todo o tempo de trabalho para enganar a fome e fornecer um suplemento de energia.

Os mineiros gostam de conversar com esses bizarros visitantes que trocam por umas breves horas a bela luz do Altiplano pelas sombrias galerias por onde correm brisas de poeiras tóxicas. São diálogos breves e um tanto irreais, pausas que amenizam um pouco os longos turnos de oito a dez horas de trabalho. Não estranhe o viajante se num desses momentos singulares tiver que responder a uma pergunta como esta: “Quantas fronteiras atravessaste para chegar até aqui?”.

O Cerro Rico, em quechua Sumaq Urqu (“serra bonita”), é uma montanha dos Andes localizada no departamento de Potosí, Bolívia.

Altitude: 4.800 m (15.748 pés)
Coordenadas: 19° 37′ S 65° 44′ W
Localização: Potosí,  Bolívia
Cordilheira: Andes

Fotos do Cerro Rico: