Lars Jansen: Compreender os Fatores Hereditários não Genéticos

Revisado por Equipe Editorial a 29 julho 2018

A Associação Viver a Ciência (VAC) entregou, no passado dia 24 de Novembro, no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, o Prémio Crioestaminal 2009.

A distinção na área das Ciências Biomédicas foi atribuída a Lars Jansen, pelo projecto “Manutenção da Memória Epigenética pelas Histonas Variantes”.

Lars Jansen, investigador principal do IGC, explicou no que consiste o projecto vencedor e revelou ainda“que a distinção representa um incentivo para continuar a fazer ciência da melhor maneira”

O objectivo de Lars Jansen é estabelecer um grupo de investigação de longa duração que faça ciência que chegue aos palcos mundiais.

O que é que este prémio representa para si, para a sua carreira?

Sinto-me muito grato pelo reconhecimento do nosso trabalho.

É uma honra ser seleccionado por um painel de cientistas internacional, o que significa que estamos a fazer alguma coisa bem e a ciência que fazemos é interessante para outras pessoas.

Isto representa um incentivo para continuar a fazer ciência da melhor maneira.

No que consiste o projecto que foi merecedor desta distinção?

O objectivo do projecto é compreender o processo em que as células se lembram do que são.

Este é um problema muito antigo em biologia que ainda não foi resolvido.

Sabemos que as células especializadas se dividem mantendo a memória e que isto não é algo que acontece apenas nos genes. Compreendemos bem parte dos genes inseridos no ADN mas esta é uma parte que não entendemos.

Sabemos quais as moléculas envolvidas, mas não sabemos como funcionam.

Deste modo, o estudo procura compreender estes factores hereditários não genéticos (ou epigenéticos) e conseguir provas essenciais de que isto realmente acontece.

Porque decidiu, em 2008, vir para Portugal realizar investigação?

Estava nos Estados Unidos com a minha família e queríamos voltar para a Europa.

Havia a hipótese de irmos para a Holanda mas, particularmente nessa altura, Portugal vivia uma fase estimulante porque havia um grande incentivo do Governo e também de outras pessoas para promover a ciência.

Em momentos como esses, existe espaço para muitas oportunidades.

Um outro aspecto relaciona-se com este instituto que oferece a infra-estrutura e oportunidade perfeitas para fazer ciência, e tem ainda um elevado nível de profissionalismo.

Isto significava que podia fazer o que quisesse tão bem como se estivesse nos Estados Unidos.

E, neste momento, em que está a trabalhar?

Já estamos a desenvolver o projecto e a usar tecnologia em mecanismos epigenéticos.

Estamos a captar muitas imagens de células para determinar o que é que as moléculas estão a fazer em termos de conservar a memória da sua identidade.

Tem encontrado, aqui em Portugal, todas as ferramentas necessárias à investigação que realiza?

Nesta investigação em particular encontramos tudo o que precisamos aqui.

Por isso, seremos capazes de desenvolver este projecto.

Se este se tornar muito bem sucedido, e nos expandirmos em direcções diferentes, então poderemos vir a precisar de especialistas ou tecnologias que venham de fora.

O que lhe agrada mais neste país?

O que mais gosto é o estilo de vida das pessoas e foi essa uma das razões que me fez vir para cá e não voltar para a Holanda.

Respeito muito, e para mim é uma boa combinação, o facto de se trabalhar muito, dar o nosso melhor, mas também nunca esquecer que a vida é importante e que há que apreciá-la.

Que ‘descobertas’ tem guardadas para o futuro?

O meu principal objectivo é estabelecer um grupo de investigação de longa duração que possa alcançar grandes progressos nesta área e fazer ciência que chegue ao ‘palco mundial’. Idealmente, gostaria de fazê-lo em Portugal devido às oportunidades de mudança que o país oferece, no entanto há aspectos que não são bons.

Preocupa-me a questão da sustentabilidade, o Governo português tem sido proactivo em criar novas oportunidades, em injectar dinheiro, em criar novos empregos, mas receio que isto não seja sustentável no futuro.

O fundamental não é ter mais dinheiro, mas assegurar que este esteja disponível de forma regular.

Outro aspecto é o facto de termos aqui boa ciência mas ainda em ‘pacotes’ isolados.

Locais como o Instituto Gulbenkian de Ciência não podem sobreviver sem ter bons espaços noutros sítios porque precisamos de uma infra-estrutura e especialistas e estes não podem coexistir todos no mesmo local.

PRÉMIO CRIOESTAMINAL

Surgiu em 2005 de uma parceria entre a Crioestaminal e Associação Viver a Ciência e consiste na atribuição de 20 mil euros ao melhor projecto de investigação científica básica na área das ciências biomédicas.

Podem candidatar-se investigadores portugueses ou estrangeiros que realizem a sua actividade em Portugal.

O júri da edição deste ano foi constituído por especialistas de várias áreas da biomedicina e oriundos de instituições como o Institut Pasteur e o Institut Cochin de França, Imperial College London, a University of Bath e o King College London do Reino Unido e, ainda, a StemCells inc, o MIT e o Public Health Research Institute Center dos Estados Unidos.

PERFIL DO CIENTISTA GALARDOADO

Lars JansenLars Jansen nasceu e cresceu na Holanda. Concluiu o doutoramento na área da genética molecular na Universidade de Leiden.

Prosseguiu a carreira académica com um pós-doutoramento no laboratório de Kevin Sullivan e Don Cleveland em São Diego, na Califórnia.

Em 2008, começou a carreira independente como investigador principal no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Já foi distinguido com o Prémio Europeu de Instalação Marie Curie, o Prémio de Instalação da EMBO (EuropeanMolecular Biology Organization), o financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia e o Prémio Crioestaminal.

Vive em Portugal, é casado e passa todo o tempo livre que tem com os seus dois filhos.