Estudo – Impacto da hemodiálise nos doentes renais crónicos

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Estudo – Impacto da hemodiálise nos doentes renais crónicos

“A maioria dos doentes mantém uma qualidade de vida aceitável”

Estima-se que mais de 800 mil portugueses sofram de doença renal crónica. E, todos os anos, cerca de 2500 pessoas começam a fazer diálise. Neste contexto, a Sociedade Portuguesa de Nefrologia (SPN) promoveu o Estudo ODYSSEY para avaliar o impacto da realidade demográfica, co-morbilidades e práticas clínicas em hemodiálise sobre a qualidade de vida, hospitalização e mortalidade dos doentes.

Após dois anos de investigação, o balanço do Estudo ODYSSEY revela-se positivo. “A primeira fase do Estudo ODYSSEY envolveu 30 unidades de hemodiálise distribuídas por todo o País, que recrutaram cerca de 800 doentes. Vamos agora incluir 12 novas unidades que estimamos que possam vir a recrutar 400 a 500 doentes adicionais”, revela José Vinhas, coordenador do estudo.

O especialista afirma que os dados preliminares permitem confirmar que “não parece existir qualquer restrição à entrada em tratamento dialítico em função da idade, uma vez que cerca de 20 por cento dos doentes tinham mais de 80 anos, tendo o doente mais idoso 94 anos”. Também foi possível constatar “uma elevada morbilidade nesta população, sendo que 38 por cento dos doentes que iniciaram diálise, em 2008, tinha diabetes, 20 por cento tinha doença coronária e 17 por cento tinha tido um AVC.

A diabetes foi a principal causa de doença renal crónica (30 por cento). As infecções virais apresentaram uma prevalência extremamente baixa – um por cento em hepatite B, um por cento em HIV, e três por cento em hepatite C”. O nefrologista sublinha que, no entanto, estes são “dados preliminares basais, relativos a 2008. Relativamente ao início de 2009 teremos certamente muito mais informação”.

“A colheita de dados tem decorrido a bom ritmo, estando nós neste momento a encerrar os dados relativos ao ano de 2008 e a iniciar a colheita de dados relativos a 2009”, explica José Vinhas. De acordo com o médico, “o desfasamento entre o início da terapêutica de substituição da função renal e a data de colheita dos dados resulta do próprio desenho do estudo”.

Quando a diálise não é solução

José Vinhas considera que “a maioria dos doentes em diálise mantém uma qualidade de vida aceitável”. Contudo, “alguns doentes experimentam uma diminuição gradual” desta qualidade. O nefrologista enfatiza que “é preciso ter a noção de que existem casos em que a diálise é pior do que a morte”.

Mais acrescenta, no âmbito da recusa de iniciar ou da vontade de suspender a diálise: “Se o doente está competente para decidir, só ele pode tomar esta decisão”. Há cada vez mais casos de insuficiência renal crónica terminal (IRCT) diagnosticados em Portugal. “Em 2009, iniciaram terapêutica de substituição da função renal 2548 doentes, o que representa uma incidência de 230 por milhão de habitantes, refere José Vinhas. Contudo, o especialista sublinha que “é preciso ter a noção que o termo insuficiência renal crónica terminal não designa uma doença ou sequer, em sentido rigoroso, uma fase da doença, mas tão só o número de doentes que inicia tratamento dialítico em cada ano”. “Não se trata, portanto, de casos ‘diagnosticados’ mas de casos ‘tratados’”, sublinha.

Importância do diagnóstico e da terapêutica

A insuficiência renal está associada a duas grandes complicações, “uma é o risco de progredir até à falência renal com necessidade de diálise ou de um transplante renal, a outra é o aparecimento de complicações cardiovasculares, que nesta população ocorrem numa percentagem muito mais elevada do que na população em geral”, afirma José Vinhas. Dados preliminares do Estudo ODYSSEY mostram, segundo o nefrologista, que “dos doentes que iniciam diálise em cada ano, 20, 9 por cento tem doença coronária e 16, 7 por cento teve um AVC”.

O investigador alerta que “muitas vezes, estas complicações cardiovasculares levam à morte. Na verdade, o risco de morte nesta população é muito mais elevado do que o risco de eventualmente vir a necessitar de diálise”. De acordo com José Vinhas, todos os anos, “cerca de 2500 pessoas começam a fazer diálise. Se pensarmos que cerca de 800 mil pessoas têm doença renal crónica, percebe-se que apenas uma pequena fracção progride até à necessidade de diálise”.

Daí que, na opinião do nefrologista, seja fundamental controlar os factores de risco, “que são simultaneamente factores de risco de progressão da doença até à fase de falência renal e de risco de complicações cardiovasculares e de morte”. Mais acrescenta: “O factor fundamental e aquele em que provavelmente mais facilmente podemos intervir é a hipertensão”.

O grande instrumento de intervenção para a população com doença renal crónica “são sobretudo os anti-hipertensores, tanto no que diz respeito à progressão para doença renal crónica, como no que diz respeito à redução das complicações cardiovasculares”, afirma José Vinhas. No entanto, “a evidência que temos de que estas medidas são eficazes nesta população não é assim tão grande como na população em geral”.

Isto é, ainda “não está provado que baixar a tensão arterial na população com doença renal crónica reduz as complicações cardiovasculares”. A razão prende-se “pelo simples facto de que não existe nenhum estudo que tenha avaliado esta questão nesta população”, explica o nefrologista.

Estratégias assentes na MGF

“A oportunidade para detectar a doença pertence claramente aos médicos de Clínica Geral”, afirma José Vinhas. “Os nefrologistas só têm contacto com doentes já conhecidos”, justifica. Segundo o investigador, o actual número de nefrologistas é insuficiente para tratar a população com doença renal crónica. “Tendo por base a estimativa de 800 mil pessoas com doença renal crónica e o número de nefrologistas portugueses, que é de cerca de 250, facilmente se percebe que esta população não pode ser seguida por estes especialistas. Mas a verdade é que também não necessita”.

Para o especialista, o que é necessário é “desenvolver estratégias para atrasar e prevenir a doença renal crónica, assentes nos médicos de Clínica Geral e baseadas na consciencialização, detecção precoce e tratamento efectivo”. Mais defende: “A forte relação existente entre doença vascular e doença renal deverá conduzir à elaboração de um plano para redução da doença renal crónica integrado no Plano Nacional de Saúde, em articulação com os planos de redução dos AVC e enfarte do miocárdio”.

(Fique a saber que é o Estudo Odyssey)

INSUFICIÊNCIA RENAL CRÓNICA TERMINAL

“A 31 de Dezembro de 2009 havia cerca de 16 000 doentes com insuficiência renal crónica terminal, 9 646 em hemodiálise, 571 em diálise peritoneal e 5793 transplantados renais”, afirma José Vinhas. Segundo o nefrologista, a população com esta doença “tem crescido ao ritmo de 5, 5 por cento ao ano, mais do que duplicando a cada 20 anos. Em 1997 esta população incluía 9668 doentes”.