-->Infecções no Sêmen: orquite, epididimite, prostatite e infertilidade

Infecções no líquido seminal: orquite, epididimite e prostatite

Publicado em 28/01/2019. Revisado por Dr Nilo Jorge Leão Barretto (Urologista - CRM-BA 22237) a 6 março 2019

As infecções no sêmen são originadas pela invasão de microrganismos patogênicos que ocorrem em algum local do sistema urinário e reprodutivo do homem, podendo estar presentes no líquido seminal. Elas podem afetar os testículos, causando orquite, o epidídimo originando a epididimite, ou prostatite, quando ocorrem na próstata.

O evento ocorre quando o esperma e o fluido seminal enquanto percorrem o trajeto até sair do organismo, entram em contato com uma área infectada. Esta situação pode alterar a capacidade do espermatozoide em fertilizar o óvulo. Outro problema é a inflamação desencadeada pela infecção, que pode causar obstrução e impedir a saída de espermatozoides ou o simples ato do homem ejacular.

Infecções No Sêmen, Orquite, Epididimite E Prostatite

Como posso saber se tenho uma infecção no sêmen?

É raro que as infecções do líquido seminal apresentem sintomas, sendo possível que permaneçam não detectadas durante longos períodos. Precisamente por isso, elas podem levar à infertilidade masculina. Mesmo sendo um evento maioritariamente assintomático, por vezes o homem pode perceber:

  • Alterações no sêmen, como seu cheiro e cor.
  • Irritação e coceira
  • Queimando ao urinar
  • Secreção de líquido através da uretra.
  • Sangue no fluido seminal.
  • Dor inguinal ou genital, seja de próstata, testicular, etc.

Na presença de algum destes sintomas é importante o homem evitar relações sexuais e consultar o médico imediatamente para solicitar uma análise do sêmen e da urina.

1. Análise do fluido seminal

Para o estudo da fertilidade masculina realiza-se um espermograma para avaliar o estado de sêmen. O exame verifica tanto o líquido seminal como os espermatozoides que contém.

Se no espermograma for identificado um número elevado de leucócitos, um pH ácido ou valores alterados na bioquímica do sêmen, pode tratar-se de uma infecção no sêmen. Portanto, nestes casos é necessário realizar uma cultura de urina e sêmen para confirmar o  diagnóstico.

A primeira avaliação realizada no espermograma é um estudo macroscópico do fluido seminal. Neste processo o estudo do pH pode indicar a presença de infecção, caso seja ácido.

O pH do sêmen deve ser maior que 7,2. Caso contrário, a mobilidade e a capacidade de fecundação dos espermatozoides será reduzida.

De seguida é analisado o conteúdo do sêmen. Para isso é realizado um estudo bioquímico (geralmente um teste complementar no espermograma), para detectar as moléculas nutritivas presentes no sêmen, ou um estudo microscópico, para analisar os espermatozoides e a presença de outras células.

Uma vez que o líquido seminal é composto por secreções das glândulas acessórias do sistema reprodutor, o estudo bioquímico do sêmen que analisa estas secreções pode ajudar a detectar anomalias tanto nas glândulas seminais (próstata e as vesículas seminais) como no epidídimo:

Próstata: a próstata secreta um líquido leitoso que contém ácido cítrico, cálcio, fosfatase ácida e zinco. O seu pH alcalino neutraliza a acidez das secreções vaginais e consegue aumentar a motilidade dos espermatozoides.

Vesículas seminais: as vesículas secretam um líquido que contém principalmente frutose, prostaglandinas e fibrinogênios. As prostaglandinas tornam o muco cervical mais receptivo e provocam contrações no útero e nas trompas de Falópio para facilitar o movimento do espermatozoide em direção ao óvulo.

Epidídimo: além de permitir a maturação e ativação dos espermatozoides, o epidídimo secreta alfa-glicosidase neutra, um composto que permite determinar a presença de alguma patologia.

Portanto, alterações nas moléculas secretadas por estas estruturas podem indicar um funcionamento incorreto das mesmas devido a alguma patologia. Para identificar alterações, no estudo bioquímico do sêmen é feita a quantificação de ácido cítrico, frutose, zinco, fosfatase ácida e alfa-glicosidase neutra.

Além disso, se no exame microscópico houver grandes quantidades de piócitos ou leucócitos, ou seja, mais de 1 milhão por mililitro, há leucocitose, o que indica a presença de uma infecção e será necessário fazer uma cultura.

Para conhecer as análises macroscópicas e microscópicas realizadas durante um espermograma, consulte o artigo: Espermograma: para que serve e como é feito.

Cultivo de urina e sêmen

A cultura do sêmen ou espermocultura permite detectar microorganismos no sêmen. Em condições normais o sêmen não deve apresentar nenhuma bactéria ou fungo. Portanto, como os valores normais da cultura espermática são nulos, se for identificada a presença de algum microorganismo, existirá uma infecção.

Por outro lado, a cultura de urina (urocultura ou urinoculturacultura) ajuda a identificar microorganismos infecciosos, principalmente bactérias e fungos. A presença de níveis elevados de microorganismos na urina pode dar origem a infecções urinárias.

Durante a cultura quantifica-se a concentração dos microrganismos presentes. Se a sua quantidade exceder os níveis considerados normais, significa que existe uma infecção que deve ser tratada.

Que tipos de infecções do sêmen existem?

As infecções podem afetar diferentes regiões do trato genital masculino, tanto no sistema reprodutivo quanto no urinário. Elas podem ocorrer na uretra, próstata, ducto ejaculatório, vesículas seminais, ducto deferente, epidídimo e testículos.

Se a infecção afetar as vias espermáticas, elas podem ficar inflamadas e, dependendo do local onde é produzida a inflamação, a saída do ejaculado e/ou do esperma pode ser impedida.

Orquite

Orquite é a inflamação de um ou ambos os testículos, geralmente devido a uma infecção testicular ou do epidídimo (orquite-epididimite). A infecção pode ser tanto bacteriana como viral. As possíveis infecções bacterianas incluem gonorreia e clamídia, doenças sexualmente transmissíveis, e a causa viral mais comum é a caxumba (papeira).

A orquite pode provocar a esterilidade masculina, já que com a inflamação a temperatura do testículo aumenta, levando a alterações na produção de espermatozóides (espermatogénese).

No caso de uma orquite bacteriana, quando corretamente diagnosticada e tratada consegue-se recuperar a função normal do testículo. No entanto, quando se trata de uma orquite parotídica (causada pela caxumba) não existe tratamento, o que eleva a possibilidade de o homem permaner estéril de forma permanente.

Epididimite

Epididimite é a inflamação de um ou ambos os epidídimos, a estrutura que liga o testículo aos ductos deferentes e onde acontece a maturação dos espermatozoides.

Geralmente é causada pela disseminação de uma infecção bacteriana originada na uretra ou na bexiga. Os organismos causadores mais comuns em homens jovens são a gonorreia e a clamídia, duas doenças sexualmente transmissíveis. Por outro lado, em crianças e em homens mais velhos, a Escherichia coli é a bactéria causadora mais comum.

A epididimite também pode ser originada por outros microrganismos, como o ureaplasma ou o Mycobacterium tuberculosis, bem como por um medicamento chamado amiodarona.

Após o tratamento da infecção, como o epidídimo é tão fino, é comum que o processo de cicatrização leve ao desenvolvimento de fibrose e, portanto, haja uma obstrução. Nestas situações o espermatozoide não consegue sair para o exterior e dá origem à azoospermia. Veja como é feito o tratamento da epididimite.

Prostatite

A prostatite é um grupo de doenças que afetam a próstata e apresentam sintomas semelhantes, como dor ou desconforto na região perineal e trato geniturinário.

A condição nem sempre é causada por uma infecção e nem sempre ocorre inflamação da próstata. A prostatite pode ser dividida em quatro categorias:

  • Prostatite bacteriana aguda: é uma infecção aguda da próstata.
  • Prostatite bacteriana crônica: ocorre devido a uma prostatite aguda não tratada adequadamente ou a uma infecção urinária recorrente.
  • Prostatite crônica não bacteriana ou síndrome da dor pélvica crônica: nesta, ocorrem sintomas de prostatite, mas a causa não é uma infecção. Pode ocorrer com ou sem inflamação.
  • Prostatite inflamatória assintomática: ocorre infecção e inflamação, mas não apresenta sintomas.

Nos casos em que a prostatite é causada por uma infecção bacteriana, o diagnóstico é simples e, na sua forma aguda, o tratamento é eficaz. No entanto, nas formas crônicas não bacterianas, a origem da patologia ainda não é totalmente clara, e portanto, o seu diagnóstico e tratamento são mais complicados.

A prostatite pode causar problemas na atividade sexual e esterilidade no homem. Conheça os principais sintomas de Prostatite e como é feito o tratamento.

Vesiculite seminal

A vesiculite seminal é a inflamação das vesículas seminais. Geralmente deve-se à disseminação de uma infecção de outra área do aparelho geniturinário, como por exemplo uma prostatite, uretrite ou epididimite. Raramente é uma doença independente.

Pode ser uma das causas de esterilidade masculina, já que pode afetar a qualidade do esperma.

Como uma infecção pode afetar a fertilidade?

As infecções nas vias e órgãos reprodutivos podem reduzir a fertilidade do homem por diversas causas:

Impedem a formação de espermatozoides: se a infecção afetar os testículos, como acontece na orquite, a espermatogênese pode ser impedida, causando oligospermia ou azoospermia secretora.

Obstrução das vias seminais: pode causar oligospermia ou azoospermia obstrutiva, impedindo a saída normal dos espermatozoides.

Alteração na motilidade dos espermatozoides: os microrganismos podem aderir aos espermatozoides e causar astenozoospermia, dificultando o seu movimento para o óvulo.

Alterações na morfologia espermática: os espermatozoides são produzidos continuamente no testículo através de um processo chamado espermatogênese. A duração do mesmo é de 60 a 75 dias e, se houver uma infecção que afete a formação do espermatozoide, pode desencadear uma alteração na sua forma (teratozoospermia). As alterações na forma podem impedir o deslocamento para o óvulo e sua fertilização (fecundação).

Aumento da fragmentação do DNA espermático: as cadeias de DNA que estão muito compactadas na cabeça do espermatozoide sofrem pequenos cortes que parecem ter um impacto negativo na capacidade de fertilização e implantação do embrião.

Formação de anticorpos anti-espermatozoides: provoca a aglutinação de espermatozóides e reduz as chances de fertilizar o óvulo.

Além disso, as infecções do sistema genital masculino podem se disseminar através do sêmen e infectar também os órgãos reprodutivos da mulher, e consequentemente afetar a sua fertilidade.

Tratamento de infecções no sêmen

Na maioria dos casos as infecções seminais podem ser tratadas e curadas com antibióticos. Também podem ser administrados anti-inflamatórios para reduzir a inflamação e analgésicos para aliviar a dor.

As relações sexuais devem ser evitadas até que o homem e a sua parceira recebam tratamento e a infecção seja eliminada totalmente. Caso contrário a infecção pode voltar e causas complicações na saúde reprodutiva de ambos.

Também é importante o homem realizar análises posteriores ao tratamento para confirmar se a infecção desapareceu totalmente.

Quando se inicia um tratamento de fertilidade, e estas análises dão positivo para alguma infecção, é essencial identificar o agente infeccioso e eliminá-lo antes de iniciar os procedimentos de reprodução assistida, se for o caso. É importante esperar que os níveis de leucócitos presentes no sêmen voltem aos valores normais antes de iniciar qualquer tratamento reprodutivo.

Nos casos em que a infecção é grave por não ter sido tratada com antibióticos na sua fase inicial, pode ser necessário recorrer a cirurgia.

Perguntas e respostas

A prostatite pode causar infertilidade?

Sim, o fluido prostático forma parte do fluido seminal que é expelido na ejaculação e é essencial para a sobrevivência e mobilidade dos espermatozoides durante a sua viagem até ao óvulo. Se houver uma infecção e/ou inflamação da próstata, o fluido seminal pode não conter o componente prostático necessário e, portanto, a concepção natural pode ser difícil. Além disso, a presença de microorganismos pode afetar a qualidade dos espermatozoides.

Como posso saber se tenho epididimite?

O sintoma mais comum de epididimite é a dor em um dos testículos. Também é comum a presença de inflamação no testículo, vermelhidão, dor ao urinar ou sangue na urina. Em caso de desconforto ou sintomas deste tipo, é importante o homem consultar o urologista.

Pode haver inflamação nos ductos seminais?

Sim, a infecção dos ductos deferentes recebe o nome de deferentite. Pode ser causada por uma infecção bacteriana e geralmente ocorre em conjunto com uma epididimite. A infecção também pode ocorrer em outros canais através dos quais o sêmen passa, como a uretra (uretrite) e o ducto ejaculatório.

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Autores
Dr Nilo Jorge Leão Barretto (Urologista - CRM-BA 22237)

Urologista - CRM-BA 22237

Consultar > Currículo Lattes.

O Dr. Nilo Jorge é Graduado em Medicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Publica- 2010. Além disso possui:

- Especialização em Urologia e Cirurgia Geral na Universidade de São Paulo – 2013/2015.

- Título de especialista em Especialização em Fellowship em UroOncologia, Laparoscopia e Cirurgia Robótica.

Fundação Antônio Prudente- AC Camargo Câncer Center, AC CAMARGO, Brasil.

Título: Cirurgias Laparoscópicas e Robótica em Urologia. - Orientador: Dr. Gustavo Cardoso Guimarães – 2017.

- Coordenador do Núcleo de Uro-Oncologia do Hospital Santo Antônio- Obras Sociais Irmã Dulce. Preceptor do núcleo de Urologia do Hospital São Rafael. Uro-oncologista do Grupo OncoClinicas do Brasil e sócio do grupo Uroclinica da Bahia.

Membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, cirurgião geral e urologista pela Universidade de São Paulo (USP- RP). Fellowship em Uro oncologia, laparoscopia e cirurgia robótica no AC Camargo Câncer Center.

Cirurgião robótico certificado pela Intuitive/Strattner. "International Member" da European Association of Urology (EAU) e da "American Urological Association" (AUA). Possui trabalhos publicados em congressos, periódicos e livros em Urologia.

Endereço: Rua Anita Garibaldi, 1815 CME Federação, Salvador/BA - Telefone: (70) 3235-0867 / 2626-3030

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