A Inteligência do Bebé com Trissomia 21

Revisado por Reinaldo Rodrigues (Enfermeiro - Coren nº 491692) a 14 dezembro 2018

As crianças com trissomia 21 têm quase sempre um certo grau de défice cognitivo. Isso significa que aprendem mais devagar e têm dificuldades de entendimento e de raciocínios complexos.

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Contudo, o grau de défice cognitivo varia muitíssimo. O seu filho vai aprender e não se «esquecerá» daquilo que aprender.

Lembre-se, acima de tudo, que a competência intelectual e as competências sociais dos bebés com trissomia 21 são valorizadas ao máximo quando as crianças crescem num ambiente favorável que as apoia, junto das suas famílias.

Há muitos anos que a inteligência é medida por meio de testes padronizados. Estes testes medem a capacidade da criança para raciocinar, concetualizar e pensar. As pontuações são muitas vezes avaliadas através de uma medida denominada quociente de inteligência ou QI.

Entre a população em geral, observa-se uma ampla variação da inteligência medida (QI). Segundo estudos feitos, 95% da população tem o que se chama uma inteligência «normal» ou média, com um QI entre 70 e 130.

2,5% da população têm o que se chama inteligência superior, com um QI superior a 130. E 2,5% das pessoas têm uma inteligência abaixo da extensão normal, com um QI inferior a 70.

Nos EUA, em termos técnicos, considera-se que os indivíduos com pontuações abaixo do âmbito de variação normal têm um défice cognitivo.

Tal como existe uma variação da inteligência «normal», há também uma variação do atraso mental (défice cognitivo), denominado em graus.

Considera-se que uma pessoa tem défice cognitivo ligeiro se o seu QI variar entre 55 e 70, défice cognitivo moderado se o QI se situar entre 40 e 55 e défice cognitivo grave entre 25 e 405.

A maioria das crianças com trissomia 21 apresenta pontuações que se situam entre défice cognitivo ligeiro a moderado. Mas algumas crianças apresentam um nível mais significativo de défice e outras possuem uma inteligência próxima do normal.

Os cientistas ainda não conseguem compreender o modo como o cromossoma suplementar da trissomia 21 afeta a capacidade mental. As investigações indicam que o excesso de material cromossómico no cromossoma 21 impede ou interfere no desenvolvimento normal do cérebro.

Os bebés com trissomia 21 têm um cérebro de dimensão e complexidade estrutural diferente, mas ainda não se sabe em que medida isso afeta o funcionamento normal.

Alguns cientistas defendem que há um gene que interfere no transporte de uma importante substância química até uma determinada zona do prosencéfalo; outros defendem a teoria de que um ou mais genes no cromossoma 21 geram anomalias na estrutura e na função dos espaços entre os neurónios (as sinapses), impedindo a normal comunicação entre os neurónios.

No geral, as diferenças nos cromossomas, como as verificadas na trissomia 21, afetam o cérebro e o sistema nervoso central, provocando atrasos de desenvolvimento ou défice cognitivo. (Para mais informação sobre possíveis alterações a nível do cérebro, consulte o artigo «Porque é que um cromossoma suplementar altera o desenvolvimento?»)

Manter perspetiva sobre a «inteligência»

Se fizerem um teste de QI ao seu filho, não se alarme com o resultado. Em primeiro lugar, os testes de QI não são considerados fiáveis antes dos sete anos de idade.

Os testes-padrão que assentam na linguagem tendem a subestimar as competências das crianças com trissomia 21, pois estas têm frequentemente dificuldades de fala, o que dificulta a resposta a determinados tipos de perguntas.

Tenha em mente que a pontuação do teste de QI do seu filho não o impede de cuidar de si próprio, de realizar trabalho produtivo e, acima de tudo, de aprender.

Um dos mitos que mais tem assombrado as crianças com trissomia 21 é a ideia de que, por terem um défice cognitivo inferior, não podem aprender. Isso não é verdade.

Há muitos séculos que a deficiência intelectual é mal compreendida. O resultado é a sociedade ter subestimado sistematicamente o potencial intelectual das crianças com trissomia 21.

Contudo, atualmente, com o tratamento adequado dos problemas de saúde, intervenção precoce, melhor educação e expectativas mais elevadas, têm vindo a aumentar as possibilidades de realização intelectual das crianças com trissomia 21.

Utilize com prudência a informação de estatísticas e estudos antigos referentes à competência intelectual das crianças com trissomia 21 (dado serem geralmente recolhidos ou feitos por pessoas de instituições onde não existia ensino especial ou intervenção precoce).

Esses estudos têm tendência a indicar níveis de inteligência inferiores aos encontrados nos estudos mais recentes.

No passado, as baixas expectativas resultavam num desempenho baixo. Sabemos hoje que este ciclo negativo é lamentável e pode ser evitado.

Através de intervenção precoce nos bebés, de cuidados médicos avançados, de melhor educação e de maior aceitação social, as crianças com trissomia 21 conseguem hoje funcionar a níveis cada vez mais elevados.

Em que medida irá o défice cognitivo afetar a vida do seu filho?

Embora os efeitos sejam diferentes em cada criança, na generalidade, o défice cognitivo vai retardar o desenvolvimento.

O mais certo é o seu filho fazer novas aquisições mais devagar do que as outras crianças. Terá mais dificuldade em manter-se concentrado por períodos de tempo mais alargados, o funcionamento da memória poderá não ser tão bom como o das outras crianças e terá mais dificuldades em aplicar a situações diferentes aquilo que aprende numa determinada situação (a chamada generalização).

Terá também mais dificuldade em adquirir competências avançadas. Competências que requeiram raciocínio rápido, coordenação complexa e análise pormenorizada ser-lhe-ão mais difíceis. Isso não significa que nunca irá desenvolver essas competências, simplesmente terá mais dificuldade e levará mais tempo a aprendê-las.

Muitas vezes, os pais querem saber com exatidão as competências que o filho conseguirá adquirir. Será capaz de ler? Vai conseguir aprender a escrever? Como será a aprendizagem na escola? Nenhuma destas perguntas pode ser respondida com rigor para a generalidade das crianças.

Muitas crianças com trissomia 21 aprendem a ler e a escrever, e algumas fazem-no muito bem. Embora as competências matemáticas sejam normalmente mais difíceis para crianças com trissomia 21, muitas dominam as competências de cálculo para utilização no dia a dia, em situações específicas, especialmente se tiverem aprendido a utilizar uma máquina calculadora.

Muitas crianças com trissomia 21 frequentam as aulas normais durante uma parte ou toda a escolaridade. Lembre-se que nas crianças «normais» também existe uma ampla variação das competências, tal como nas crianças com trissomia 21.