Meteoritos

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

O maior medo de Astérix e dos Gauleses – que o céu lhes caia em cima da cabeça – não é apenas fruto de uma imaginação fértil, o céu pode de facto enviar-nos algumas surpresas. O espaço interplanetário está repleto de partículas de várias dimensões que chocam com a atmosfera terrestre, ardem e vaporizam-se. As maiores conseguem passar essa barreira e caiem na Terra, são os chamados meteoritos.

O que são meteoritos?
Estes corpos rochosos são oriundos principalmente da cintura interna de asteróides situada entre Marte e Júpiter, pequenos demais para serem considerados planetas. Os seus tamanhos variam de pequenos corpos até cerca de 900 km de diâmetro como é o caso de Ceres e que representa cerca de 30 % da massa de todos os asteróides. Vesta e Palas têm diâmetros superiores a 400 km sendo todos os restantes menores.

O meteorito "Willamette", o maior já encontrado nos Estados Unidos da América, no estado do Oregon. É o sexto maior encontrado no mundo inteiro.

Estes asteróides, ao contrário do que inicialmente se pensava, não são restos de um planeta que explodiu. São apenas fragmentos que não se juntaram para formar um planeta porque a atracção gravitacional de Júpiter não permitiu que se aglomerassem. A queda de meteoritos ou o choque de meteoros na atmosfera terrestre resulta da alteração das órbitas de alguns asteróides por forças gravitacionais e do seu cruzamento com a trajectória da Terra.

Meteorito Marília, condrito H4 caido em Marília-SP, em 05/10/1971, às 5:00p.m.

Quem nunca pediu um desejo ao avistar uma “estrela cadente”? Hoje sabe-se que este fenómeno é produzido pelo choque de pequenos corpos a grande velocidade com a atmosfera terrestre e que ao entrarem em contacto com as moléculas de ar, se tornam incandescentes. A estes corpos dá-se o nome de meteoros. Os que conseguem atravessar o invólucro gasoso do planeta pelas suas maiores dimensões, chamam-se meteoritos, e são peças importantes para a compreensão da origem do sistema solar e das fases iniciais da evolução planetária.

O meteorito "Hoba West", o maior já encontrado.

Quando os corpos rochosos ainda se encontram no espaço interplanetário antes de atingirem a atmosfera designam-se meteoróides. Os meteoros mais impressionantes, chamados de bólides, têm uma cabeça muito brilhante e de várias cores. Ao longo da sua trajectória produzem explosões e projectam partículas incandescentes. Estes penetram profundamente na atmosfera e ao atingirem níveis muito baixos produzem sons que podem ser ouvidos durante alguns minutos após a sua visualização.

Meteorito Willamette descoberto no estado de Oregon E.U.

Desde sempre que os meteoritos, de uma forma ou de outra, desempenham um importante papel, quer como misteriosos objectos vindos do céu envolvendo enigma, quer como matéria- -prima para o fabrico de ferramentas e armas. Foram usados por Egípcios, Maias, Incas, Astecas e Esquimós. Alguns entendiam-nos como fenómenos sobrenaturais, outros tentavam estudá-los e explicá-los: Anaxágoras (filósofo grego – 500-428 a.C.), Diógenes (filósofo – 413-327 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.).

Campo del Cielo meteorito de ferro com furos naturais

A queda mais antiga de um meteorito, cujo material se encontra preservado, aconteceu em 1492 a 16 de Novembro pelas 11h e 30m em Ensisheim na Alsácia e o seu maior fragmento (54.7 kg) encontra-se em exposição no átrio da Câmara Municipal da cidade. Em 26 de Abril de 1803, na aldeia de l’Aigle na Normandia Francesa, ocorreu uma chuva de fragmentos de um grande meteorito, que foi avistada por centenas de pessoas do campo. Para investigar o sucedido foi enviado pela Academia de Ciências de França, Jean Baptiste Biot, físico ilustre, que veio a elaborar um relatório que convenceu a comunidade científica de que os meteoritos eram provenientes do espaço exterior.

Assento de carro atingido pelo meteorito Benld em 1938.

Antes mesmo da apresentação deste relatório em 1807, E.F. Chladni, advogado e físico alemão escrevera um livro onde já focara a relação entre as “bolas de fogo” e os meteoritos sugerindo uma origem extraterrestre, teoria que na altura não foi aceite. Alguns químicos e mineralogistas do mesmo século defendiam até que esses corpos provinham de violentas erupções vulcânicas. Ainda em 1796, Robert Southley, poeta Inglês veio a Portugal para visitar seu tio que residia em Lisboa e aproveitou para conhecer o País.

Um meteorito pedregoso (H5) encontrado a norte de Barstow, na Califórnia, Em 2006

Um ano depois, de regresso a Inglaterra, escreveu um livro onde descrevia um fenómeno testemunhado em Évora: “Na tarde do dia 19 de Fevereiro de 1796, próximo de Évora, uma pedra de 10 libras caiu do céu”, chegou mesmo a descrever a amostra como de cor de chumbo da qual hoje se desconhece o paradeiro. Esta seria a primeira referência à queda de um meteorito em território Nacional. Em 1845, eram descritas pelo Professor António Macedo Pinto num periódico local, duas pedras que teriam caído em Picote, Miranda do Douro, no final do mês de Setembro de 1843.

Meteorito GIBEON, descoberto em Gibeon - Namaqualand, Namíbia – África nas Coordenadas Geodésicas de Latitude 25º20’S e Longitude 18º00’E.

Pesavam 1125 g e 440 g e tinham 3.45 e 3.61 de densidade respectivamente, também destas amostras se desconhece o paradeiro. Em 1877, no decurso de trabalhos agrícolas, foi encontrado em S. Julião de Moreira, perto de Ponte de Lima, enterrado na camada superficial de granito desagregado, um meteorito já muito alterado com aspecto ferruginoso que pesava na altura da sua descoberta cerca de 162 kg. A maior parte das amostras provenientes deste meteorito estão em parte incerta, algumas encontram-se em exposição em Museus de todo o Mundo. Em Portugal existe uma no Instituto Superior Técnico pesando aproximadamente meio quilograma.

Meteorito Neenach encontrado em Antelope Valley, Califórnia - estados unidos

Em finais de 1924 ocorreu uma chuva de meteoritos na zona fronteiriça de Olivença. Alguns fragmentos caíram em território Português, um em Castelo de Vide que se encontra no Museu Mineralógico da Universidade de Coimbra e outros menores em exposição nos Museus de Elvas, da Universidade do Porto e da Universidade de Lisboa. O conhecido meteorito de Chaves caiu em Vilarelho da Raia a 3 de Maio de 1925 com uma massa total de 2.9 kg. A 23 de Agosto de 1950, acompanhada de forte explosão deu-se a queda de um meteorito no Concelho de Santiago de Cacém, mais precisamente em Monte das Fortes.

Meteorito Laguna encontrado em Santa Cruz, na Argentina.

Os fragmentos dispersaram-se entre Alvalade e Ferreira do Alentejo. Cinco destes estão conservados no Museu do extinto Instituto Geológico e Mineiro, agora parte Integrante do INETI – Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação. A penúltima queda de meteoritos em Portugal aconteceu em 1968, a 14 de Novembro, segundo o relatório do Serviço Meteorológico Nacional, o corpo terá caído na Herdade de Tenazes, no Alandroal e o meteoro que o precedeu fez-se avistar pelo clarão produzido durante 1 a 3 segundos. O meteorito foi encontrado cerca de 10 minutos depois, ainda incandescente e assim continuou até 4 horas depois do embate com o solo.

Meteorito Kapper, encontrado por Francisco Pascasio Moreno a 04 de abril de 1896 em Chubut, Argentina. Tipo: Metal, de 114 quilos. Hoje é uma peça de Coleção no Museo de La Plata.

Foi retirado no dia seguinte ainda quente, pesava 25,25 kg. A última queda de que há registo aconteceu no dia 28 de Dezembro de 1998, pela 1 hora da madrugada caiu, a Sul de Ourique, no Monte Carapetel, Aldeia de Palheiros, um meteorito que ao embater na atmosfera terá provocado um grande clarão e dois estrondos audíveis pelos habitantes, um mais forte e outro mais fraco que poderão corresponder à passagem na baixa atmosfera e o impacto no solo, podendo, no entanto, também corresponder à queda de dois fragmentos.

Depois do impacto o corpo fragmentouse em vários pedaços ficando dispostos em leque, o maior pedaço recolhido pesava 2.6 kg, entre outros que terão sido recolhidos pelos habitantes. Calcula-se que o meteorito tivesse um diâmetro de 25 cm e pesasse 30 kg. O Departamento de Geologia da Universidade de Lisboa conseguiu recuperar quatro fragmentos dos quais o maior que se encontra à guarda do Museu Nacional de História Natural. Estima-se que atinjam a atmosfera terrestre, por dia, mais de cem toneladas de material correspondendo a inúmeros meteoróides de pequenas dimensões. Por ano, mais de 100 meteoritos chegam mesmo a atingir a Terra, felizmente a maior parte deles tem dimensões muito reduzidas.

Existe apenas um caso em que uma pessoa foi atingida por um, Ann Hodges de Sylacauga no Alabama, que em 1954 foi atingida por um meteorito que pesava 19,84 kg e que caiu dentro de sua casa através do tecto. O meteorito de ferro Hoba é o maior meteorito conhecido. O seu peso actual é estimado em 66 toneladas porque parte do meteorito Hoba enferrujou, mas o seu peso original pode ter sido de até 100 toneladas. Nunca foi removido de seu local de queda na Namíbia. O maior meteorito encontrado nos Estados Unidos foi em Willamette (Oregon). Pesa quinze toneladas e foi encontrado em 1902.

Meteoritos muito grandes atingiram a Terra há muito tempo e deixaram crateras como aquelas que se vêm na Lua, são reconhecidas mais de 30.000 crateras de impacto, de diâmetro e geometria variados. A Cratera Aitke localizada no pólo sul da Lua é considerada a maior (2.500km de diâmetro) e mais profunda (13km) cratera de impacto do sistema solar. Sobre a crosta continental terrestre até o momento foram detectados apenas cerca de 200 desses astroblemas (do grego astro = corpo celeste + blema = cicatriz, ou seja, cicatrizes produzidas na crosta terrestre pelo impacto de corpos celestes de grandes proporções).

O que ocorreu na Lua repetiu-se na Terra, tanto pela proximidade ao satélite como pela atracção da gravidade várias vezes superior e, ainda mais, tratando-se de alvo com superfície de impacto muito maior. No entanto, essa disparidade numérica é explicada pela acção de agentes erosivos do relevo na Terra de eficácia praticamente desprezível na Lua. Acredita-se que a Cratera de Barringer, a mais bem preservada, no Arizona, tenha sido formada há 49000 anos pelo impacto de um meteorito com 300 000 toneladas e 30 a 50 metros de
diâmetro. A cratera tem mais de 1200 m de diâmetro e 200 de profundidade.

O impacto de um cometa ou asteróide que colidiu com a Terra foi provavelmente o responsável, há 65 milhões de anos atrás, pela extinção dos dinossauros. Deixou uma cratera de 180 km agora enterrada sob a selva, perto de Chicxulub na Península de Iucatã e extinguiu cerca de 70% das então espécies vivas do planeta, entre as quais os dinossauros, os maiores e mais formidáveis répteis que habitaram o planeta.

Mais recentemente em 1908 numa região despovoada remota da Sibéria ocidental conhecida como Tunguska caiu um objecto de aproximadamente 60 metros de diâmetro e provavelmente constituído por muitos pedaços levemente agrupados. Em contraste com o evento da Cratera de Barringer, desintegrouse completamente antes de embater no solo e assim nenhuma cratera foi formada. No entanto todas as árvores foram derrubadas numa área de 50 quilómetros. O som da explosão foi ouvido em Londres.

O Astroblema de Vredefort de 300km de diâmetro e caiu há 2000 milhões de anos, na África do Sul, é considerado uma das maiores e mais antigas estruturas de impacto até o momento conhecidas na Terra. Este formou um domo e a bacia de Witwatersrand, fonte de 50% do ouro já extraído na Terra. Outra cratera de impacto, localizada no Canadá, é a estrutura de Sudbury com 250 km de diâmetro e 1850 milhões de anos, comparável ao anterior em tamanho e idade, é a maior fonte de níquel do mundo. Já outras estruturas de impacto foram encontradas durante actividades de prospecção de petróleo como no caso do Astroblema de Chicxulub no Golfo do México.

Os astroblemas enquanto estruturas geológicas, têm grande importância económica como áreas potencialmente ricas em depósitos de minérios. Hoje em dia, a associação de sua génese com eventos de extinção biológica de larga escala torna o estudo dos astroblemas uma das mais interessantes áreas de investigação científica. O conjunto de consequências dos impactos de bólides sobre a Terra tornou-se um dos mais recentes paradigmas para explicar a evolução do planeta.