Montalegre: capital do Barroso

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Montalegre, eis a terra de um povo de alma severa, rude e dura, mas ao mesmo tempo afável e acolhedora. Numa história que se conta para os lados do Barroso: diz-se que quando alguém bate à porta de um alentejano ou de um barrosão as respostas são semelhantes. Apenas com uma pequena diferença: o alentejano primeiro pergunta “quem é?” e só depois responde “entre!”; o barrosão não pergunta nada, somente responde: “Entre quem é!”. Pode parecer que se trata apenas de uma conjugação diferente das mesmas palavras, mas para o barrosão não é bem assim. O barrosão reconhece o espírito acolhedor do seu comparsa alentejano, mas arroga para si alguma superioridade nesta matéria.

“Entre quem é!”. O brado nem é exclusivo do Barroso – é aliás evocado um pouco por toda a região transmontana -, mas assume um sentido especial nesta zona do país, onde ainda hoje as populações conservam alguns costumes das primitivas comunidades agro-pastoris. Como anotou Jaime Cortesão, no seu livro “Portugal, a Terra e o Homem”, os hábitos comunitários são ainda muito visíveis em algumas aldeias barrosãs, onde “os gados vão aos pastos em vezeiras comunitárias (…); o forno e o touro são propriedades colectivas”. E “os casos de justiça, os problemas de poisio ou de cultura nos baldios e as questões de águas são resolvidas em assembleias dos melhores do povo, chamadas coutos”.

Barroso

O Barroso é uma terra com raça. Os seus habitantes sempre viveram longe de tudo e de todos, isolados por montes e serras, mas nunca fechados. Antes pelo contrário: são abertos, gostam de receber e convidam a entrar. São um povo de alma severa, rude e dura, mas ao mesmo tempo afável e acolhedora.

O barrosão sabe ser amigo do amigo, mas ninguém queira saber o que é ser seu inimigo. Escreveu Guerra Junqueiro que, enquanto um minhoto quebra um prato, o transmontano mata um homem. E esta é uma sentença que assume também um sentido particular no Barroso. Nesta zona, mais do que noutras em Trás-os-Montes, não se brinca: mata-se para lavar a honra ou por divergências com partilhas de terrenos ou por uma simples linha de água. Mata-se ao tiro, à paulada, à facada ou à machadada.

Este é o lado indomável do barrosão. Mas esqueça-se disso e fique com a garantia de que, ao visitar o Barroso, vai encontrar uma região com um povo com singulares qualidades humanas. E este é o convite que lhe fazemos: entre no interior de uma terra bafejada pela natureza com habitantes de características peculiares. Uma terra montanhosa, agreste e selvagem, mas também suave e sublime.

Montalegre: capital do Barroso

No alto das montanhas barrosãs, venha conhecer um mundo em vias de extinção. Mesmo sem ser vizinho, familiar ou amigo, “entre quem é”. Entre, pois, nesta região do extremo Noroeste transmontano, na chamada Terra Fria, e disfrute de uma das paisagens mais sublimes do país, sinta a cultura de um povo único, saboreie a sua gastronomia, conheça as aldeias onde vivem, construídas em granito, e aprofunde as suas tradições. Pode começar por aquela que é conhecida como a “capital do Barroso”: a vila de Montalegre.

Vila de Montalegre

Para quem chega, esta vila surge sobreposta num morro granítico, a cerca de 1000 metros de altitude. A encimá-la está o majestoso vulto de um dos castelos medievais mais belos de Portugal. Vale a pena visitar esta fortificação, de onde se obtém uma das mais amplas visões panorâmicas. Manchas de floresta, pastos húmidos e verdejantes, que servem de alimento para o conhecido gado barrosão, campos cultivados com batata-de-semente, pequenos riachos e fragas de todas as formas e feitios, tudo coroado por uma imensidão de montanhas.

Do lado norte, sobre a cumeada dos montes, está a linha de fronteira que divide Portugal e Espanha. E, mais à direita, surge o discreto vulto da serra do Larouco, à qual não pode deixar de subir.

Tente tapar os olhos ao passar ao lado da gigantesca pista de automóveis construída no sopé da volumosa serra e suba até ao alto dos seus 1525 metros de altura, perto do qual nasce o rio Cávado – na chamada Fonte Fria. Ao chegar à pista de parapente, saia do carro, enfrente o vento purificador e aprecie a paisagem soberba sobre montes e vales, portugueses e espanhóis, com Montalegre ao fundo. Esta serra alberga ainda uma imensidão de aves, algumas delas ameaçadas de extinção, como o tartaranhão-caçador, o tartaranhão-azulado e o falcão-abelheiro.

Reserva natural e cultural

Dividida em dois concelhos (Boticas e Montalegre), a região planáltica e montanhosa do Barroso é dominada por cinco serras (Larouco, Gerês, Cabreira, Alturas e Leiranco) – e todas elas guardam um encanto especial. Destaque para a serra do Gerês, que se ergue imponente e majestosa, a poente do planalto barrosão. Com uma altura máxima de 1434 metros, esta serra – que está entre as três mais altas de Portugal – tem uma topografia bastante acidentada, despenhadeiros escarpados e cumes proeminentes e agudos.

O Barroso merece ser fruído sem pressas. Nesta região, de clima violento e de ásperos contrastes, as casas são de pedra, como a paisagem, recortada esta por montes, albufeiras e fios de água que escorrem por todo o lado.

A região do Barroso é uma autêntica reserva natural, com manchas extensas de carvalhais autóctones, alguns centenários, que são abrigo de um grande número de plantas e animais, alguns deles em risco de extinção. O lobo, o corço, a gralha-de-bico-vermelho, a marta, o javali e a raposa são animais que ainda habitam por estas paragens.

Mas a região do Barroso é também uma reserva de património cultural. Por estas terras encontram-se vestígios arqueológicos e arquitectónicos de diferentes períodos da história e aldeias de construção tradicional cujos habitantes ainda se dedicam à actividade agro-pastoril de montanha – na maioria das aldeias torna-se, no entanto, necessário fazer um exercício de abstracção e ignorar algum desordenamento local e construções modernas, de gosto duvidoso.

Esta região apela ao silêncio, à calma e à contemplação. A paisagem não é muito colorida – os montes graníticos são dominados por carvalhos e vidoeiros – , mas a ausência de policromia é interrompida nas vertentes e fundos dos vales por vastos lameiros, húmidos e verdejantes, que garantem o sustento do gado. Os pastos irrigados do Barroso são um dos traços mais característicos dos planaltos e dão à paisagem um toque de cor e frescura inolvidáveis.

Barómetro
+ As paisagens e a gastronomia
A crescente descaracterização do património natural e construído; a pista de automóveis na serra do Larouco.

Gentílico – Montalegrense
Área – 806,19 km²
População – 12 762 hab. (2001)
Densidade populacional – 15,83 hab./km²
Número de freguesias – 36
Presidente da Câmara Municipal – Não disponível
Data da Fundação do município – 1273
Região (NUTS II) – Norte
Sub-região (NUTS III) – Alto Trás-os-Montes
Distrito – Vila Real
Antiga província – Trás-os-Montes e Alto Douro
Orago – Senhor da Piedade
Feriado municipal – 9 de Junho
Código postal – 5470 Montalegre
Endereço dos Paços do Concelho – Praça do Município, 5470-214 Montalegre
Sítio oficial – www.cm-montalegre.pt
Endereço de correio electrónico – municipio@cm-montalegre.pt

População do concelho de Montalegre (1801 – 2004)
1801 1849 1900 1930 1960 1981 1991 2001 2004
18 072 19 794 20 732 21 158 32 728 19 403 15 464 12 762 12 150

As freguesias de Montalegre são as seguintes:

  • Cabril
  • Cambeses do Rio
  • Cervos
  • Chã
  • Contim
  • Covelães
  • Covelo do Gerês
  • Donões
  • Ferral
  • Fervidelas
  • Fiães do Rio
  • Gralhas
  • Meixedo
  • Meixide
  • Montalegre
  • Morgade
  • Mourilhe
  • Negrões
  • Outeiro
  • Padornelos
  • Padroso
  • Paradela
  • Pitões das Júnias
  • Pondras
  • Reigoso
  • Salto
  • Santo André
  • Sarraquinhos
  • Sezelhe
  • Solveira
  • Tourém
  • Venda Nova
  • Viade de Baixo
  • Vila da Ponte
  • Vilar de Perdizes

Património
Castelo de Montalegre

Literatura
Bento da Cruz

Política
Bento António Gonçalves

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Viagem Sem Fronteiras

Eis a proposta para um passeio do tipo “Vá para fora cá dentro”. Vá a Espanha “sem sair” de Portugal; ou melhor, fique em Portugal, apesar de passar em Espanha; ou melhor ainda: vá de Portugal a Espanha sem sentir qualquer diferença. Veja como as fronteiras entre os dois países podem ser tão diluídas e como a arquitectura das casas, os costumes dos povos e até os hábitos comunitários podem ser tão semelhantes. Passe em sítios no mínimo inesquecíveis – e lamente o declínio de alguns usos, costumes e tradições.

O passeio começa em Montalegre, passa no caminho florestal junto ao sopé da montanha raiana que divide Portugal e Espanha, onde se situa o novo parque eólico de Montalegre, entra em Espanha pela aldeia galega de Vilar, segue por Randin e inflecte novamente para Portugal, pela aldeia de Tourém. Esta é uma das propostas da Naturbarroso, uma empresa de promoção e organização de eventos turísticos, formada por cinco amigos com as mais diversas formações, mas com uma semelhança: uma “forte” ligação a Montalegre.

Tendo como base os recursos mais valiosos do Barroso – a natureza e a cultura -, esta empresa promove passeios, desportos em contacto com a natureza e actividades ao ar livre: caminhadas, circuitos pedestres, passeios equestres, passeios turísticos em veículos todo-o-terreno e BTT, orientação, “paintball”, tiro ao arco, “canoeing”, “slide”, “rappel”, observação de aves e outra fauna e circuitos temáticos em torno do lobo, do corço, dos ninhos das águias, etc.

Os eventos promovidos pela Naturbarroso possuem também uma componente de informação, divulgação e sensibilização do património existente na região, como forma de “contribuir para a sensibilização da população local e visitantes sobre os valores locais e assim levar à sua conservação”, explica a empresa. Naturalmente, a famosa gastronomia regional, capaz de fazer as delícias dos mais exigentes comensais, não foi esquecida pela empresa. Um fim-de-semana inclui repastos inesquecíveis: desde jantares tradicionais a piqueniques na serra, com churrasco de carne barrosã.