Música

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Um dos mais antigos episódios conhecidos de amor e ódio que marcaram a história antiga iniciou-se em torno da música. Relatam-nos os textos da época que o rei Saúl, o primeiro rei de Israel, que reinou durante 20 anos, escolhido e aclamado pelo seu povo pelos seus atributos, que a um dado momento da sua existência, começou a sofrer de sérias perturbações. Isto tornou-se tão forte que, depois de ter tentado outros métodos, os conselheiros da corte sugeriram-lhe: “dá ordens para procurarmos alguém que saiba tocar harpa …. e ficarás melhor, ao ouvir o som da harpa” (I Sam 16:16).

Assim aconteceu. Saúl deu “ordens para procurarem um homem que soubesse tocar bem harpa”. Então, alguém na corte sugeriu “um dos filhos de Jessé, de Belém, que sabe tocar muito bem. Além disso é homem corajoso e valente guerreiro; fala com sensatez, tem boa apresentação…”

É neste contexto que se inicia uma relação de grande amizade. Após o período de “estágio”, Saúl constatou que realmente David era uma pessoa excepcional, pois, não só quando Saúl estava atacado, David “pegava na harpa e tocava… e este acalmava e sentia-se melhor”, como ainda fez dele seu pajem de armas.

A universalidade da música

A música é um dos elementos que encontra a sua expressão em todas as culturas e sociedades. Embora os padrões se alterem com a explosão da tecnologia, não existe nenhuma sociedade que não tenha desenvolvido os seus estilos musicais próprios, respondendo aos critérios geográficos e de desenvolvimento que lhe são específicos. Uma das indústrias mais activas dos nossos tempos é aquela que gira em torno dos espectáculos musicais e das produções discográficas. Com um simples toque, podemos colocar toda aquela orquestra ou grupo musical dentro da nossa casa ou carro e com uma fidelidade ainda mais apurada do que aquela que conseguiríamos ao vivo.

Esta facilidade, no entanto, está a trazer sobre a sociedade um profundo aspecto negativo: muita dessa música que é tocada não é apreciada na sua totalidade, pois responde a uma necessidade de criação de uma ambiência de fundo que nós muitas vezes queremos dar no contexto de alguma actividade que estamos a desenvolver. Talvez por isso, a música corre o risco de perder uma das suas características fundamentais, pela vulgaridade a que a submetemos. Uma dessas características é justamente o seu poder curativo. Quando foi a última vez que nos instalámos confortavelmente e deixámos que só a música fosse a nossa companhia durante 15 minutos?

Os estudos mais recentes que têm sido desenvolvidos em torno da compreensão do funcionamento do cérebro vieram trazer explicações, ainda que incompletas, sobre o mecanismo do efeito da música no corpo humano. Todos sabemos que o estilo musical tradicional português (o fado) cria um estado de espírito melancólico completamente diferente daquele que as “Quatro Estações” de Vivaldi. Como se estabeleceu essa particularidade, levando os povos a ficarem marcados pelos estilos musicais que criam?

Provavelmente, uma das explicações reside nos factores sociais que marcam cada cultura: Portugal é um país que tem, há mais de 500 anos, uma marca de nostalgia e perda marcada na sua herança genético-cultural: fomos um país de exploradores que não voltaram; de pescadores que o mar não devolveu (veja-se o caso da cidade de Peniche e a sua marca de perda, praticamente presente em todas as suas famílias). Neste ambiente de saudade e perda, a música veio criar a catarse social de um povo vestido de preto.

De acordo com investigações desenvolvidas na Inglaterra, na Universidade de Keele, por John Sloboda e Patrick Juslim, a música integra o nosso comportamento emocional. A nossa vida emocional é a almofada de amortecimento dos acontecimentos esperados ou inesperados que nos permite também gerir com eficácia (ou não) o seu impacto. Uma vez que muitas “coisas” são desconhecidas, mas conseguimos apreender o seu impacto (se eu der uma rosa à minha mulher é provável que ela me dê um sorriso de agradecimento, o que por sua vez desencadeará em mim uma sensação de bem-estar, depois do “mal estar” adquirido pelo gasto do dinheiro que fiz), do mesmo modo a música, com a possibilidade que temos de antever a resolução e desenvolvimento das diferentes frases musicais (unidades sonoras que fazem sentido) encontra, no ambiente emocional de cada um de nós, um lugar próprio.

O que a ciência tem vindo a evidenciar é que certos tipos de música têm certos efeitos sobre o organismo: uma música com cadências menores, como é o caso, por exemplo, da música finlandesa, provoca um estado de tristeza que contrasta com os efeitos produzidos por um samba do Brasil, de euforia e aumento do ritmo cardíaco e da pulsação. Por outro lado, melodias agradáveis produzem a diminuição do stress e têm sido usadas, com sucesso, para descontrair doentes em fase pré-operatória.

No dealbar de qualquer nova ciência, com os pequenos passos que vão sendo dados de sedimentação das descobertas científicas, é importante saber aplicar pessoalmente o que de bom têm essas descobertas. Descubra, nos diferentes momentos da sua vida, a música que pode relaxar. Identifique músicas calmas e que lhe sejam agradáveis para fazer a terapia do stress diário, deixe que a “música da natureza” envolva os seus espaços de trabalho e lazer. Com os vidros duplos e ambiente condicionados por centrais, que mantém a temperatura no ponto ideal de trabalho, alguns prejuízos têm sido identificados (tais como o aumento do stress, ansiedade e atitudes neuróticas). Desloque-se, por isso, até ao parque, beira-mar, floresta, e deixe que os sons da natureza o envolvam.

Se vive ou trabalha num ambiente como o que foi caracterizado, traga a natureza para dentro de portas: recentemente montei uma fonte dentro de casa, no espaço em que mais tempo se passa. O som da queda da água provoca uma sensação de bemestar que se torna terapêutica nos dias em que o stress da cidade colocou “os nervos à flor da pele” e vários têm sido os amigos que referem a sensação de relaxamento que sentem nesse espaço. Existem mesmo composições musicais feitas à base de sons da natureza. Embora nem todas sejam de qualidade, podem ser encontradas algumas que podem trazer – com os olhos cerrados – aquilo que a urbanidade nos roubou…

A nossa maravilhosa fadista Portuguesa Ana Moura