Natureza Impecavelmente Selvagem

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Nas terras de Basto, que separam o Minho de Trás-os-Montes, encontrou António Moura motivos para um fim-de-semana muito bem passado. A natureza recebeu-o no seu melhor e só foi pena que o estado das vias o tivessem impedido de ir mais longe.

Arco de Baúlhe e Cabeceiras de Basto? Venham daí, que não se vão arrepender, pois estas duas localidades e a região a que pertencem são altamente recomendáveis, por exemplo, para uma escapadela de fim-de-semana. São parte das chamadas Terras de Basto, um território que separa o Minho de Trás-os-Montes.

O concelho de Cabeceiras de Basto, localizado no distrito de Braga, tem algo que só por si vale bem uma visita: pedaços de natureza impecavelmente selvagem, que podem ser usufruídos na serra da Cabreira. É fácil encontrá-los, como se explica lá mais para a frente. Uma viatura todo-o-terreno ajuda muito.

Mas há outros motivos de atracção, como o grande Mosteiro de São Miguel de Refojos de Basto (um belo exemplar do barroco), praias fluviais, uma unidade museológica da CP na antiga estação do caminho de ferro de Arco de Baúlhe, que se presume ser interessante.

Era em Arco de Baúlhe que terminava a linha do Tâmega. Na estação, votada ao abandono, ainda há vestígios do tempo em que o comboio era o principal meio de transporte e de ligação entre algumas zonas do interior e o litoral. São os casos de duas placas alusivas a “concursos de estações”, uma na categoria “Floridas” e outra na das “Bem cuidadas”. A primeira, em cerâmica, assinala o primeiro prémio, Grupo A, atribuído a Arco de Baúlhe na edição de 1962; a segunda, em mármore, regista o “3ª prémio” da Região Norte obtido em 1970. Foi tempo…

Não há unidade museológica, mas há outros motivos de interesse. Além dos referidos à parte, há o esplendor da natureza. Um dos expoentes máximos encontra-se na Serra da Cabreira, acessível a partir de Cabeceiras. Toma-se a estrada para Póvoa de Lanhoso e, depois, vira-se para Norte, em direcção a Abadim. Esta aldeia prenuncia o que vem a seguir, tal a sua beleza serena. Deve-se atravessá-la sem pressas e, quiçá, parar para melhor a saborear. Se há agressões arquitectónicas ou outras, do género das tristemente célebres “maisons” que mancharam no passado recente a paisagem das regiões exportadoras de emigrantes, não se dá por elas.

Mas ala! – que o nosso destino fica mais acima. Aos poucos, a serra vai-se revelando. É como se fosse um espectáculo de luxuoso “strip-tease”. A presença humana vai diminuindo. Vêem-se prados verdes onde pastam vacas e bois, daqueles com imponentes cornaduras ao alto, à maneira dos do vizinho Barroso (Cabeceiras confina com Boticas e Montalegre). Um caminho em terra batida, à esquerda, conduz a uma praia fluvial. O pavimento estragado pelo mau tempo aconselha a utilização de véiculos todo-o-terreno – o que, de resto, voltará a acontecer mais adiante, quando a estrada em alcatrão chega ao fim.

Chega-se então aos Moinhos de Rei, um local fresco que deve o seu nome à presença de pequenos moínhos de água construídos no reinado de D. Dinis. Os que sobreviveram encontram-se inactivos e cobertos de musgo. Estão bem à vista, assim como os pequenos canais de transporte de água – que continua a correr -, feitos de propósito para a sua laboração. No local há também um parque de merendas, um “posto de fomento cinegético” no qual são criadas perdizes e codornizes e um cercado de veados. Até aqui, um carro normal nada tem a temer.

Os problemas começam logo a seguir, quando entram em cena os caminhos em terra, alguns indicados para passeios. Um deles conduz a Travassô, onde há um picadeiro, um posto de venda de artesanato e sabe-se lá que mais. Deu-se o caso, no entanto, de o “turista” ter sido obrigado a fazer marcha-atrás quando seguia para lá, devido ao mau estado do pavimento. Foi uma desilusão, porque a beleza pura da paisagem convida a ir sempre em frente, sem parar, em busca do que a Cabreira tem para dar. Assim, ficaram as saudades de conhecer o que apenas se adivinha – uma natureza no seu melhor.

Como ir

Arco de Baúlhe/Cabeceiras de Basto fica a pouco mais de uma hora de carro do Porto, tomando a A3 e depois a A7 para Guimarães, seguindo daqui para Fafe. Vinte e poucos quilómetros depois, por uma estrada em bom estado, surge a pequena vila de Arco de Baúlhe. Para chegar a Cabeceiras são mais seis quilómetros bons de fazer.

Também se pode ir pela A4, até Amarante, e daí virar para Celorico de Basto (faz parte do triângulo dos princiais aglomerados urbanos da região de Basto, com Cabeceiras e Mondim, pertencendo este a Vila Real). Este percurso tem um contra: a sucessão de curvas e o pavimento degradado da via entre Celorico e Arco de Baúlhe, o que o torna cansativo e eventualmente desaconselhável a estômagos sensíveis. Mas também oferece vantagens – uma paisagem bela, solares magníficos e a possibilidade de fazer um desvio para a Senhora da Graça, via Mondim, um local de peregrinação situado a mais de mil metros de altitude e muito conhecido por ser o termo de uma das etapas mais duras da Volta a Portugal. A subida do monte – que visto de alguns lados se parece com um cone perfeito – faz-se por um estrada bem alcatroada.

Onde ficar

Impera o turismo em espaço rural. Uma boa opção é a Casa da Tojeira (site: www.casadatojeira.com), integrada numa quinta onde se produzem vinhos verdes e espumantes. É um típico solar do século XVII, que dispõe de sete quartos. Entre os que nele se hospedaram, conta-se o Ex Presidente da República, Jorge Sampaio. Além do solar, a quinta tem uma outra casa, onde se pode ficar – a Casa da Herdade, com cinco apartamentos equipados com “kitchenette” e outros serviços que os bons hotéis oferecem. Cavalos, bicicletas para passeios, uma vinha, relvados, tranquilidade campestre e uma piscina coberta e aquecida são os extras que este espaço de turismo rural oferece. Ideal para crianças.

Onde comer

Pobres daqueles que demandem esta região e não vão ao Restaurante Caneiro, em Arcos de Baúlhe. Não percamos tempo: serve um polvo no forno de alto lá com ele. Outro restaurante potável é O Barão, em Cabeceiras. Aqui, reinam as carnes, de vitela e cabrito, de boa qualidade.

A não perder

O Mosteiro de S. Miguel de Refojos, situado na sede do concelho, destaca-se pela sua monumentalidade e exuberância decorativa – ou não fosse de estilo barroco. É obrigatório admirá-lo, apreciar o altar em talha dourada, o órgão de tubos duplo, etc. Encontra-se na Praça da República e é o edifício de maior porte de Cabeceiras de Basto. A fachada e as torres sineiras depois de algumas obras de conservação ficaram “soberbas e muito elegantes”, como realça um folheto municipal disponível no Posto de Turismo local.

Já agora, não deixem de reparar na própria Praça da República, com a sua configuração triangular e o pelourinho à beira do vértice do ângulo superior. É também aí que se encontra a estátua do “Basto”, tido como um dos monumentos mais curiosos do concelho. Em granito, representa um guerreiro-monge que, segundo a lenda, enfrentou com êxito ataques mouros. Tinha um “porte avantajado de grandes e possantes membros e o rosto retalhado por mil golpes de escaramuças passadas”.

Conheça a história real solicitando a informação existente no Posto de Turismo. A estátua do Basto que chegou até nós sofreu algumas desfigurações em 1612 e 1892, pois acrescentaram-lhe uma cabeça com barretina, bigodes fartos, calçaram-na com meias e botas, etc. É desta figura que nasceu o nome da região.