Pêro de Alenquer – Descobrimentos

Revisado por Andre a 28 outubro 2018

O piloto náutico Pêro de Alenquer terá nascido na vila de Alenquer, talvez em 1455. Hoje pouco se sabe da vida deste mareante de origem humilde, que por mérito próprio se elevou acima do comum, na época dos grandes descobrimentos portugueses. Damião de Góis recorda-o como “homem muito esperto nas coisas do mar”.

Navegador experimentado nas voltas do mar, sabedor das complexas artes da marinharia e da navegação e hábil utilizador dos instrumentos náuticos, ganhou naturalmente a estima e o apreço do Príncipe Perfeito. Garcia de Resende cita-o como “grande piloto dos mares da Guiné”; noutro documento da época é referido como “Piloto-Mór de D. João II, que por seu ofício e arte de navegar merece ser favorecido e honrado”.

Foto abaixo: Excelente escultura executada pelo artista Leopoldo de Almeida para a Fábrica Vista Alegre no ano de 1957, pertencente à colecção de Navegadores envolvidos na epopeia dos Descobrimentos Portugueses.

Pêro de Alenquer em 1488 é escolhido como piloto de pequena mas importante armada de caravelas, que sobre o comando de Bartolomeu Dias parte do Porto de Povos, a caminho das paragens desconhecidas da África Austral, demandando a desejada passagem para os longínquos mares das Índias. Dobrado o cabo mais meridional da África, navegando para norte chega ao Rio do Infante já no mar Indico na costa oriental do continente. Voltam os navegadores a Portugal dobrando de novo o cabo africano e completando em cerca de 16 meses esta viagem tão importante, que abria definitivamente os caminhos para a Índia fabulosa.

O piloto Alenquerense volta novamente às lides marítimas. Assim, em 1490, comanda uma expedição à terra da Guiné levando a bordo um embaixador e alguns missionários. É então, um navegador cheio de experiência e de prestígio que ganhara nas diversas viagens ao longo da Costa Africana. Um investigador dos nossos dias, coloca o ilustre alenquerense entre os três melhores pilotos do seu tempo. Conhecia, talvez como ninguém, cabos, enseadas, portos, correntes, ventos dominantes, roteiros e aguadas da costa ocidental do novo continente; marinheiro prático, com segurança velejava em qualquer tipo de navio fosse ele a manobreira caravela de velas latinas ou a segura nau de panos redondos. Face a estas qualificações invulgares, não é de estranhar que em 1497 seja nomeado piloto da nau capitã “S.Gabriel” da armada de Vasco da Gama, aparelhada para a tão desejada rota da Índia.

Na “Relação” desta viagem, escrita por Álvaro Velho, é assinalada a intervenção do piloto alenquerense na aproximação e achamento da ilha de Santa Helena no Atlântico Sul. Esta aventurosa e difícil viagem à Índia, chegaria a Calecut, o porto do seu destino, em finais de Março de 1498. Com esta rota completava-se o ciclo mais importante da epopeia das viagens portuguesas: a abertura dos portos e terras do Oriente, cuja riqueza haviam de deslumbrar e maravilhar a Europa de então. No atribulado regresso desta armada perdem-se as notícias de Pêro de Alenquer. As sombras e o silêncio rodearam a sua morte tal como haviam ocultado o seu nascimento.

Esgotam-se em poucas linhas os textos antigos com referência a Pêro de Alenquer. Aqui deixamos a notícia de alguns desses documentos:

Garcia de Resende conta-nos na sua “Crónica de D. João II” uma pequena história: “Um dia estando El-rei praticando porque navios de velas redondos não podiam vir da Mina, disse um Pêro d’Alenquer, grande piloto da Guiné e que tinha descoberto, que ele traria da Mina qualquer nau por grande que fosse. E El-rei lhe disse que não podia ser, pois já muitas vezes se experimentara, e que todas as que lá mandara não puderam vir. E Pêro d’Alenquer se afirmou que o faria e se obrigava a isso. E El-rei disse: A um vilão peco não há cousa que lhe não pareça que fará, e em fim não faz nada”.

E depois de comer o mandou chamar só, e lhe disse a causa porque aquilo lhe dissera, e que lhe perdoasse, porque cumpria assim o seu serviço, e que de outra hora não dissesse tal, e que o tivesse em grande segredo, e que lhe fez mercê de que ele foi bem contente, e sempre em vida d’El-rei se teve por muito certo que naus não podiam vir da Mina e dessas partes da Guiné, e por isso teve sempre a Guiné muito guardada”.

Este texto, é o mais extenso dedicado a Pêro de Alenquer. Para além dele e em relação ao famoso piloto podemos ainda mencionar o que consta no livro XXV da chancelaria de D. João II: “Dom João II (etc), a quantos esta nossa carta virem fazemos saber que Pêro de Dalanquer nosso piloto-mor em a nossa cidade de Lisboa é pessoa que por seu oficio e arte de navegar merece ser favorecido e honrado e bem tratado e assim pelos serviços que temos recebido esperamos receber dele, me apraz, e que por bem da nossa ordenação e capítulos das Cortes por nós feitos e outorgados, ele possa usar, os panos de seda e de lã da maneira como fazem os escudeiros e que naquela mesma seja reputado e havido nos ditos vestidos e isso mesmo nos apraz que ele possa trazer ao colo cadeia de ouro com apito sem embargo da dita ordenação e capítulo das Cortes e de quaisquer outras ordenações e defesas que em contrário dele aí haja; porém mandamos a todos os seus curadores, Juizes, justiças oficiais e pessoas a quem o conhecimento disto pertencer, e esta carta for mostrada que a cumprem e a guardem e façam cumprir (…) dada em Aviz aos 19 dias de Maio, João Dias a fez no ano de 1483. E eu Álvaro Lopes secretário do Senhor Rei a fiz escrever por seu mandado”.

Damião de Góis refere-se assim ao seu conterrâneo na “Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel”, a propósito da armada comandada por Vasco da Gama na sua primeira viagem à India: “o piloto desta armada se chamava Pêro de Alenquer, homem muito esperto nas coisas do mar e por cuja indústria Lopo Infante e Bartolomeu Dias chegaram até ao Rio do Infante”.

Finalmente, registamos outra pequena notícia do diário de bordo da armada da primeira ida à Índia como consta na “Relação da primeira viagem à Índia pela Armada de Vasco da Gama, por Álvaro Velho”. “7 de Novembro – Santa Helena: À terça-feira viemos na volta da terra e houvemos visto de uma Terra Baixa e que tinha uma grande baía. O capitão-mór mandou chamar Pêro de Alenquer no batel, a sondar se achava bom pouso, pelo qual a achou muito boa e limpa e abrigava de todos os ventos, sómente de noroeste.

E ela jaz Leste e Oeste, à qual puseram nome Santa Helena”.