Perturbações na infância

Perturbações na infância

O número de crianças com perturbações do foro do desenvolvimento e psicológicas pode não ter aumentado, mas os diagnósticos correctos revelam que são cada vez mais frequentes. Daí que ouçamos falar, com mais regularidade, de hiperactividade, défice de atenção, violência escolar e depressão na infância. O tempo é fundamental na recuperação, pelo que conhecer cada um destes fenómenos e saber encaminhá-los parece ser imprescindível para os profissionais envolvidos. Neuropediatras, pediatras e psicólogos partilham saberes.

Tiago entrega as moedas que traz de casa ao colega de escola, Pedro. Em troca, este não o persegue nem ameaça. O cenário não tem personagens verídicas, mas a história acontece um pouco por todo o País. O acto ameaçador e de ofensa psicológica continuada entre crianças, sobretudo entre os 11 e os 13 anos, é classificado como bullying. Esta é uma das perturbações que afectam as crianças e adolescentes de hoje. À lista podem juntar-se patologias como a hiperactividade, com ou sem défice de atenção, o síndrome de asperger e mesmo stress, depressão e ansiedade.

As crianças tornam-se doentes difíceis de diagnosticar, uma vez que, quando falamos em perturbações, os sintomas podem ser confundidos com traços da personalidade característicos da tenra idade.

Depressão, agressões entre pares e hiperactividade são algumas situações cada vez mais comuns nas crianças e adolescentes.

A hiperactividade com défice de atenção e o síndrome de Asperger são perturbações do desenvolvimento. Neste último as características que podem alertar para a sua existência passam pela deficiente aquisição de competências sociais, que tem como consequência comportamentos desadequados e dificuldade nas relações interpessoais, inteligência normal ou acima da média, com fraca coordenação e percepção grafo-espacial, interesses restritos e preocupações obsessivas. É a partir do terceiro ano de vida que os sintomas começam a tornar-se mais visíveis.

As crianças com sindrome de asperger tendem a ser incompreendidas pelos colegas de escola. Colocar um ponto final neste cenário faz-se através da informação, defende a presidente da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger, Maria Piedade Monteiro. A hiperactividade com défice de atenção caracteriza-se por agitação, irrequietude, desorganização, imaturidade, relacionamento social pobre, inconveniência social, problemas de aprendizagem, irresponsabilidade, falta de persistência e preguiça. Sinais que poderão ser semelhantes aos de uma criança mais “traquina”.

Numa entrevista ao jornal Expresso, o pediatra do desenvolvimento, Armando Fernandes, explica: “O que permite fazer a distinção entre ambas as situações é, de forma sucinta, a presença simultânea de três características fundamentais: A intensidade, a duração e a repercussão do comportamento em pelo menos dois contextos. Para isso, além da avaliação formal em consulta é necessário obter informações nos pais, nos educadores/professores e em outras fontes disponíveis”. As primeiras manifestações acontecem também nos primeiros três anos de vida e quanto mais cedo for feito o diagnóstico melhores serão os resultados da terapêutica.

“Com o diagnóstico atempado poderemos intervir e eventualmente tratar mais precocemente esta perturbação melhorando os resultados e evitando o desenvolvimento de complicações, como as perturbações psico-afectivas secundárias, entre outras”, diz o especialista.

Papel dos pais é fundamental

Nos últimos anos, tem-se observado um aumento do número de casos identificados como hiperactividade com défice de atenção. Mas Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, relaciona este aumento com o número de diagnósticos correctos, não necessariamente com um aumento efectivo do número de casos. Estima-se que em Portugal existam entre 35 e 75 mil crianças com perturbação por défice de atenção com hiperactividade. Há também situações como stress, ansiedade e depressão, normalmente associadas aos adultos, entre as preocupações dos pediatras.

Tânia Paias, psicóloga, confessa que tem acompanhado crianças com estes problemas e recomenda que “o tempo que os pais passam com os filhos deve ser essencialmente de qualidade. Mais do que muito tempo, é preciso que esses momentos tenham qualidade”. A vida diária agitada e o contexto sócio-cultural, consumista e com dificuldades para aceitar o fracasso, podem conduzir a estes sentimentos na infância que, mais uma vez, requerem atenções redobradas.

“Os sinais de depressão nas crianças são diferentes dos que surgem no adulto. É preciso estar atento a mudanças de comportamento drásticas e continuadas”, afirma a mesma responsável.

Em consequência da correria do quotidiano, o stress surge e perturba, muitas vezes, o sono dos mais novos. Numa entrevista recente ao DN, o director do serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Gomes Pedro, confessa que “há 15 anos não tinha tantos casos com problemas de sono”. O tempo necessário para dormir varia de criança para criança, mas oito horas é o tempo de sono recomendável pelos médicos.

Noites mal dormidas acabam por ter consequências no aproveitamento escolar das crianças, conduzindo mesmo a momentos de ansiedade durante o dia. Gomes Pedro sugere então que não haja stress na hora de jantar, devendo este ser um momento calmo e de convívio. À noite, a leitura de uma história pode também contribuir para uma noite de sono pacífica. O fenómeno mais citado nos últimos tempos, quando se fala dos mais novos, prende-se com actos continuados de agressão, sobretudo verbal, entre pares.

O bullying é causa de abandono escolar, de diminuição das notas, maior irritabilidade, de isolamento e, nos casos mais graves, de suicídio. “Esta é uma realidade que está dentro de um espaço escolar. Há uma desigualdade a nível do poder, aquele que é vítima não é capaz de se defender e opta pelo silêncio porque tem medo de retaliações”, explica uma das mentoras do projecto Portal Bullying, Tânia Paias. A escola não está preparada para lidar com estas situações e desconhece a realidade da sua própria instituição de ensino.
Estes fenómenos acontecem, por exemplo, quando não há uma identidade individual, mas uma identidade de grupo”.
Há uma maior evidência deste problema entre os rapazes. “As novas tecnologias também têm surgido como um dos meios de bullying e de violência psicológica”, conclui a também psicóloga.

Unir para ajudar

As associações de pais e doentes, Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e iniciativas na Internet são movimentos que unem pessoas em torno de um mesmo problema e que visam facilitar a partilha de experiências, ajudar a ultrapassar as dificuldades e informar a sociedade em geral. No que respeita à hiperactividade, que pode ou não estar associada ao défice de atenção, a Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva (APDCH) presta uma ajuda preciosa.

A associação sem fins lucrativos explica no seu endereço da Internet, em www.apdch.net, que o seu objectivo é “apoiar crianças com Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA), pais e professores, de modo a poder intervir nos vários contextos onde a criança se desenvolve e se encontra inserida”. A APDCH actua em diversas áreas. Deste modo, tem consultas de desenvolvimento, que se aliam ao “apoio psicológico caracterizado por uma intervenção psicoterapêutica dirigida à criança e, quando necessário, aos seus pais” e ao “apoio psicopedagógico, uma área onde “se pretende criar um espaço de apoio global às crianças com dificuldades na aprendizagem, défice de atenção e outros”.

O trabalho da associação passa ainda pela reeducação e terapia psicomotora, onde são desenvolvidas “actividades essencialmente lúdicas e expressivas, para reeducar o domínio comportamental, emocional e cognitivo, procurando reduzir a frequência dos comportamentos inadequados que estas crianças exibem e aumentar a frequência de comportamentos desejados”, são feitas reuniões com pais e é prestado acompanhamento pedagógico aos professores. Os encontros com os progenitores são fundamentais porque há, por vezes, uma ruptura devido ao cansaço que uma criança hiperactiva acaba por provocar.

“Os pais destas crianças sentem-se muitas vezes exaustos e desamparados, a APDCH organiza periodicamente grupos de discussão onde, em conjunto, se procura debater e partilhar experiências”, lê-se na página online da associação.

CADin

O Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CADin), criado em 2003, com o apoio de várias empresas, tem como missão o diagnóstico e acompanhamento de crianças “com desenvolvimentos atípicos”, explicou o director clínico da instituição, Nuno Lobo Antunes. O centro, nomeado infantil, recebe também adolescentes e adultos “porque ao longo destes seis anos de trabalho apercebemo-nos que as crianças que aqui chegavam, cresciam e necessitavam também de acompanhamento”, conta, por seu turno, Helena Lopo de Carvalho, que gere a bolsa social do CADin.

A função da instituição é muito diversificada e vai para além da intervenção médica. “Ajudamos a ser autónomos e a vencer na vida”, afirma a responsável. Este é o principal objectivo do centro que, graças à bolsa social, atende pessoas de todas as classes sociais. “Um terço das famílias que recebemos está abrangida pela nossa bolsa social”, comentou Helena Lopo de Carvalho.
Actualmente o CADin acompanha cerca de 10 800 famílias, uma palavra que Nuno Lobo Antunes reforça: “Famílias, porque uma criança, quando aqui chega, não vem sozinha, vem com familiares e não deve ser avaliada isoladamente, mas sempre no contexto do seu ambiente familiar”, explicou o neuropediatra, um dos mentores do projecto.

O director clínico lamenta que o CADin não tenha delegações noutros pontos do País e confessa que “seria muito necessário porque aqui [na Malveira, Cascais] recebemos meninos de todas as regiões”.

Portal Bullying

O fenómeno do bullying pode não ser novo, mas pelo menos é mais discutido nos últimos tempos. Neste âmbito foi criado, por um grupo de psicólogos, o portal bullying.

O neuropediatra Nuno Lobo Antunes dirige o CADin, Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil.

Em www.portalbullying.com.pt, 20 profissionais estão disponíveis para responder a questões ou dúvidas e até mesmo para apoiar psicologicamente todos os que possam ver-se envolvidos nesta questão. “Temos uma equipa de 20 técnicos que se encontram em sete cidades do País e tentam ajudar as crianças vítimas de bullying”, explica Tânia Paias. A coordenadora do projecto acrescenta que “além de fazerem aconselhamento, os psicólogos procuram encaminhar os alunos para os serviços sociais mais adequados na sua área de residência.

Cada atendimento é feito com o máximo de sigilo para não intimidar nem afugentar quem procura ajuda: Os psicólogos garantem a confidencialidade para que os utilizadores sintam o menor desconforto possível ao contar as agressões que sofrem na escola”. Além do chat, que não está ligado a todas as horas devido à falta de profissionais, quem visitar o portal pode a qualquer momento enviar uma mensagem, que será depois respondida por um dos psicólogos. “Os técnicos acumulam este serviço com a sua profissão, logo a disponibilidade não é total”, sublinha Tânia Paias. “Nesses casos, a criança ou o adolescente deixa uma mensagem no chat e obtém a garantia de que haverá uma resposta o mais depressa possível”, conclui a responsável.

O projecto tem ainda como objectivo criar uma base de dados que permita ter um conhecimento mais alargado da situação. Tânia Paias explica: “Os testemunhos recolhidos pelos nossos técnicos vão servir para criar uma base de dados que permita avaliar a dimensão que este problema tem junto da população escolar em Portugal”. A psicóloga continua: “Diagnosticar o fenómeno em cada estabelecimento de ensino irá permitir recolher e divulgar essa informação junto dos professores e dos directores das escolas. Queremos, assim, usar o portal para dotar as escolas de instrumentos que permitam construir os seus próprios programas de prevenção, adaptados às características dos seus alunos”.

PGR QUER LEGISLAÇÃO PARA BULLYING

O Procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, defendeu que é “necessária uma legislação própria” para o bullying. De acordo com fonte do PGR, citada pelo JN, “a violência escolar não tinha, no Ministério Público, tratamento autónomo e diferenciado de todos os outros tipos de violência, o que só acontece recentemente, daí as dificuldades acrescidas em discriminar o número de casos”.
Há dois anos, houve 160 inquéritos por violência escolar, “admitindo-se que o número seja maior, já que alguns não constam do sistema informático”, conclui a mesma fonte.