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Porque perdi o meu filho?

Publicado em 01/07/2010. Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Porque perdi o meu filho?

Logo tornarás a ficar grávida, mulher! Não sejas tonta! Olha para a tua cunhada, que também teve um grande desgosto e já vai ter o terceiro filho…». Não leves isso tão a peito, que ainda és muito nova e não é caso para tanto». Todas as mulheres que sofreram um aborto, ouviram estes argumentos repetidamente. Quem as rodeia tenta convencê-las de que, se existe a possibilidade de uma nova gravidez, não têm porque se preocupar.

Salvo em circunstâncias muito especiais, nem a sociedade, nem os médicos nem a família concedem demasiada transcendência a este percalço, que se classifica de mero incidente no decorrer da história de um casal. Não se lhe dá importância talvez porque nos países desenvolvidos, quase 90% das mulheres que voltam a ficar grávidas depois de um aborto enfrentam o processo com normalidade e dão à luz filhos saudáveis. No entanto em casos em que tenham tido abortos consecutivos, têm necessidade de seguir um tratamento específico.

Perda irreparável

Torna-se totalmente injusto para a mulher a tese, socialmente instaurada, de que o objectivo consiste em ter filhos. Se agora não foi possível, para a próxima vai conseguir. Perante qualquer situação de perda, tentar animar explicando que em outra altura recuperará, não serve de consolo, é preciso sentir. E talvez a vítima da maternidade forçada sinta que os demais não entendem o seu sofrimento.

Dor e perda da auto estima

A opinião generalizada considera que a mulher se recomporá rapidamente tanto física como psicologicamente. Mesmo aqueles que compreendem a destruição afectiva, acreditam que a mulher a ultrapassa facilmente.

Existe uma linha divisória entre a primípara e a mãe que já tem filhos. Para a primeira representa, além de uma tristeza natural, uma perda da auto-estima, por não ter sido capaz de passar a prova da maternidade. A segunda, que já demonstrou a sua capacidade para ser mãe, pode não ser muito afectada na sua auto-estima, mas sim, um dor profunda pela perda afectiva, por já saber e conhecer a alegria de ter um filho

A maior parte das interrupções espontâneas da gestação têm lugar durante o primeiro trimestre. Ainda que nessa fase a mulher esteja mais dependente de si própria e das alterações que experimenta que do futuro bebé, no caso das primíparas, ficou bem patente algo fundamental: é capaz de ser mãe.

Para a maioria, este acontecimento significa confirmar o seu papel como mulher: quando perde o que poderia ter sido o seu primeiro filho, interroga-se sobre a possibilidade de conseguir ficar grávida outra vez e, consequentemente, questiona a sua função como mulher. Começa a ter relevância o “poderei”?, “não poderei?”. Algo que ela vive como um desafio perante o seu marido, perante os seus pais (sobretudo, a sua mãe), perante a sociedade e principalmente perante ele própria. Agora racionalizamos muito mais as coisas e valorizamos mais o ser pessoa, o desenvolvimento profissional…, mas no fundo continua lactente o binómio mulher-mãe».

Uma alteração hormonal similar à do puerpério

Por outro lado, ninguém parece recordar que depois de um aborto se produzem alterações no metabolismo que podem levar a um processo depressivo, similar ao puerperal. As alterações hormonais começam quando o óvulo é fecundado e todo o corpo da futura mamã se prepara para receber o embrião. E continuam quando o processo se interrompe e todo o seu organismo deve voltar ao seu lugar.

A mulher sofre então uma depressão motivada em grande parte por causas bioquímicas. Se a esse factor se acrescenta a sensação de dor, encontramo-nos perante um período de depressão, cujo grau e duração no tempo dependem das circunstâncias pessoais: se já teve outros abortos ou não, se o marido a soube entender, se era um bebé desejado.

Maria, empregada bancária, abortou na semana seguinte de ter confirmado que se encontrava grávida, justamente no dia em que a sua filha fazia cinco meses. «Eu não sofri nenhum trauma, porque ainda não acreditava e porque não podia assumir que ia ter em casa outro bebé a chorar durante a noite…Eu, na realidade, estava muito preocupada por causa do meu emprego, porque acabava de voltar da baixa de parto a que juntei o mês de férias. Imaginem o que é voltar ao trabalho grávida outra vez, ainda que não o soubesse!».

Segundo os especialistas quando se trata de uma gestação não desejada e de muito pouco tempo, as mulheres consolam-se, pensando que esse bebé teria complicado demasiado a sua vida. No entanto, ainda que se verbalize dessa maneira, se aprofundarmos verificaremos a evidência de um sentimento de perda. E é normal que isso aconteça. É normalmente muito menos doloroso se a mãe ainda não tinha sentido os movimentos do feto.

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