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Rede de Espirometria nos Cuidados de Saúde Primários

Publicado em 10/04/2010. Revisado por Equipe Editorial a 19 outubro 2016

Rede de Espirometria nos Cuidados de Saúde Primários

O Fórum Internacional das sociedades científicas de medicina respiratória (ATS, ACCP, ERS, ALAT, IUATLD, PATS e APSR), que representam os cinco continentes, decidiu atribuir a 2010 o Ano do Pulmão. Os objectivos deste esforço conjunto é o de se sensibilizar o público e os media para as doenças respiratórias, e o de chamar a atenção para os seus custos globais. Um dos marcos do Ano do Pulmão será o Dia Mundial da Espirometria, dia 14 de Outubro.

Prevê-se que nesse dia a espirometria seja disponibilizada gratuitamente a nível global. Esta iniciativa será uma grande oportunidade de alerta para a saúde respiratória. Foi John Hutchinson (1811-1861), médico em Londres, o inventor do espirómetro. Hutchinson observou que uma campânula em posição invertida na água possibilitava a captação e a medição do volume de ar expirado. A valorização do factor tempo no registo da espirometria só muito mais tarde é que foi considerada.

O volume de ar expirado após inspiração máxima foi então descrito como Capacidade Vital; vital porque previa uma mortalidade prematura, se diminuída. Na verdade, o Estudo de Framingham, em 1980, veio comprovar esta observação: o parâmetro Capacidade Vital tem efectivamente valor prognóstico. Além disso, há evidência sobeja de que o FEV1 (VEMS) tem valor prognóstico em patologia respiratória e cardiovascular.

A espirometria, sendo útil no diagnóstico e acompanhamento de doentes com asma e outras doenças respiratórias, é essencial no caso da DPOC. Pelo menos 20 por cento dos fumadores virão a desenvolver Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC). Habitualmente a doença não é reconhecida e diagnosticada até que seja clinicamente aparente e moderadamente avançada; os sintomas de DPOC surgem geralmente após uma redução significativa do FEV1 (FEV1 < 50 por cento do valor predito).

 

A espirometria é necessária para confirmar o diagnóstico de DPOC. Além disso, o grau de gravidade da DPOC é avaliado segundo o grau de obstrução brônquica determinado pela espirometria. Os registos espirométricos servem ainda para orientar o tratamento, avaliar a resposta terapêutica e monitorizar a evolução da DPOC. Com efeito, os registos periódicos dos parâmetros ventilatórios são úteis para se monitorizar a progressão da obstrução das vias aéreas na DPOC; note-se que entre os doentes há um leque largo de graus de perda anual de função ventilatória.

O rastreio espirométrico de populações de alto risco é um método simples e eficaz para a detecção da DPOC. Na verdade, a realização de espirometria, em fumadores e ex-fumadores com mais de 40 anos, poderá trazer ganhos de saúde muito significativos. Ao identificar a DPOC num estádio de menor gravidade da doença, a realização de espirometria possibilita a aplicação de medidas dirigidas de prevenção relativas ao tabagismo, ao ambiente laboral e a hábitos de vida.

O diagnóstico precoce de DPOC por espirometria cria pois a oportunidade de se poder actuar para evitar a redução da funcionalidade dos portadores da doença e a deterioração da sua qualidade de vida. Quanto mais tardio for o diagnóstico de DPOC, menor será o impacto da cessação tabágica na história natural da doença, com reconhecido carácter evolutivo e incapacitante.
Em Portugal, o subdiagnóstico de DPOC decorre da sub-utilização da espirometria nos Cuidados de Saúde Primários.

Silhueta de John Hutchinson (1811-1861), e do seu espirómetro.

Em suma, a acessibilidade à espirometria nos Cuidados de Saúde Primários possibilita o diagnóstico precoce de DPOC e viabiliza a aplicação oportuna de medidas tendentes a contrariar a evolução da doença para estádios de maior gravidade; também perspectiva, a longo prazo, menor consumo de medicamentos e menor procura de cuidados de saúde, primários e diferenciados.

Ora, sabendo que na DPOC ligeira e moderada existe um risco acrescido de mortalidade cardiovascular e por cancro do pulmão, a realização de espirometria nos centros de saúde abre uma janela de oportunidade para a boa prática médica relativa a estas patologias.

Procurando dar resposta à estratégia de intervenção E4 do Programa Nacional de Prevenção e Controlo da DPOC (“… generalização, a nível dos Cuidados de Saúde Primários, da utilização da espirometria simples… ”) concebeu-se um projecto-piloto para o desenvolvimento de uma Rede de Espirometria nos Cuidados de Saúde Primários.

Neste projecto, com sede na DGS e aprovado pela Ministra da Saúde, uma Unidade Operacional Móvel de Espirometria (UOME), que corresponde ao conjunto “viatura-técnicoequipamento”, desloca-se às unidades de cuidados primários e articula-se com um Serviço de Pneumologia para a validação e leitura dos exames e a indispensável elaboração de resposta para o Médico de Família. A exportação de dados é uma outra faceta do projecto, aliás, extremamente valiosa, para conhecimento epidemiológico.

Iniciado em dois centros hospitalares, o de Gaia e Lisboa-Norte, com a prestimosa colaboração dos respectivos Serviços hospitalares de Pneumologia, o projecto decorre desde Março passado. Em 2010 será avaliado, aspecto fundamental para que o actual modelo, o das unidades operacionais móveis de espirometria, seja validado em termos dos ganhos de saúde que promove e, então, poder ser alargado a outros centros de elevada demografia, do continente.

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