Saber Avaliar a Dor

É preciso Saber Avaliar a Dor – O presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, José Romão, fala da dor para que se destruam os mitos em relação à mesma. O responsável sublinha a importância de os profissionais de saúde estarem alertados para a
questão.

 
A dor continua a ser subvalorizada pelos profissionais de saúde e instituições de ensino.

Saber ouvir o doente, conhecer os dois grandes tipos de dor, a crónica e a aguda, e prescrever o tratamento adequado, sem receio dos opióides, são alguns dos aspectos que José Romão, anestesista do Hospital de Santo António, no Porto, defendeu.

O também presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) falou das dificuldades e objectivos da associação. Informar a população e profissionais de saúde, ainda pouco sensibilizados para o assunto, são objectivos que tem vindo a desenvolver desde que foi criada, em 2002.

José Romão falou também do Programa Nacional para Controlo Dor (de 2008), lamentando que ainda não se tenha alcançado a meta de criação de unidades de dor em pelo menos 75 por cento das unidades de saúde da rede do Serviço Nacional de Saúde.

No dia 5 de Março decorreu o Fórum Futuro, onde estiveram reunidos especialistas da dor. Um dos objectivos foi debater o estado da dor em Portugal. Quais as principais conclusões retiradas deste encontro?

Nestes encontros concluímos sempre que há muitas coisas que ainda desconhecemos. Há imensos problemas que se levantam e ficam sem resposta. Há insuficiente tratamento da dor e insuficiente prescrição de opióides. É preciso divulgar mais esta matéria junto dos clínicos.

A dor nem sempre é dos aspectos mais falados em Medicina. Considera que os profissionais de saúde estão alertados para este problema e as consequências a ele inerentes?

Há grandes lacunas. As faculdades de Medicina, de um modo geral, não têm acompanhado a evolução científica da dor e do seu tratamento. Os jovens médicos estão pouco sensibilizados para este assunto e os que estão no terreno há já alguns anos ainda têm menos sensibilização.

A nossa cultura médica, em Portugal e no mundo, é no sentido de desvalorizar a dor. Há, pois, uma necessidade de aumentar conhecimentos e os médicos, em particular os de medicina geral e familiar, mostram-se propensos a isso. Uma das situações em que os clínicos são deficitários é na avaliação da dor. Não chega esperar que o doente fale sobre a sua dor, é preciso que o inquiramos directamente.

É preciso saber avaliar a dor. Outra questão importante é conhecer a farmacologia. Saber as indicações e contra-indicações dos analgésicos de um modo geral, dos anti-inflamatórios e dos opióides. Saber gerir de um modo racional a associação de analgésicos.

Hoje, o tratamento faz-se recorrendo à associação de fármacos, muito raramente é feito em monoterapia. O clínico que saiba isto tem meio caminho andado para tratar bem um doente com dor.

Quais os tipos de dor que existem e como se distinguem?

Podemos abordar a dor sobre múltiplos pontos de vista. Dor Aguda e Dor Crônica. Esta é uma grande divisão. Dor aguda é sinal de alarme, sinal de que algo no exterior está a atentar contra a integridade física. Nesse sentido, esta dor é útil, necessária e imprescindível para manter a saúde. A dor aguda acompanha a lesão até à sua cicatrização. A dor crónica é aquela que persiste para além da cura da lesão. Da sua existência não resulta uma mais-valia biológica, portanto só pode haver uma atitude que é tratá-la.

Como pode ser feita a prevenção?

Uma das estratégias que se preconizam é o tratamento adequado da dor aguda para prevenir a instalação de uma dor crónica. Embora não haja evidência suficiente para apoiar esta atitude numa boa parte das situações, nós todos fazemos isso.

E relativamente ao diagnóstico e ao tratamento

A dor é sempre subjectiva e nessa medida nós temos, na esmagadora maioria das vezes, que nos apoiar naquilo que o doente descreve da sua experiência. Sempre que possível o fármaco é oral. Usamos muito os analgésicos, os anti-inflamatórios, os opióides e há uma grande classe de fármacos, ditos adjuvantes que são úteis em muitas situações e que são até tratamentos de primeira linha. Além dos medicamentos temos as técnicas evasivas, como os bloqueios neurológicos.

Como é que o doente se refere à sua dor?

As pessoas são todas diferentes e o modo como se referem à sua dor é sempre diferente. Há o doente muito apelativo, que fala imenso da sua dor e que leva o médico quase a ter uma aversão ao assunto. E há exactamente o oposto, aquele doente que nós sabemos que sofre, que tem uma patologia que inevitavelmente lhe provoca dor, mas que é imensamente contido, introspectivo e que verbaliza muito pouco. Entre estes dois pólos há todo um espectro. O médico deve estar preparado para identificar os vários tipos de doentes e saber descodificá-los.

Desde 2008 existe um Programa Nacional para Controlo Dor. Qual o balanço que faz?

O tratamento da dor pode ser feito nos cuidados primários.

Uma das grandes metas era a criação de unidades de dor em, pelo menos, 75 por cento das unidades de saúde da rede do Serviço Nacional de Saúde. A grande meta ficou aquém. Também em termos de diferenciação ficou algo por fazer. Uma boa parte das unidades de dor não conseguiu diferenciar-se para prestar os cuidados que consideramos adequados, isso fruto, uma boa parte das vezes, de alguma falta de cooperação e sensibilização para o assunto de parte das administrações hospitalares. Mas houve um grande mérito: Colocou-se a dor na agenda política.

Falando agora da APED. Tem como principais objectivos a promoção do estudo, ensino e divulgação dos mecanismos fisiopatológicos, meios de prevenção, diagnóstico e terapêutica da dor. De que forma a associação actua na sociedade?

Fazemos o lançamento de brochuras com informação para a população em geral, que são distribuídas nas farmácias, nos centros de saúde, etc. Esta é uma das formas que encontramos para divulgar o assunto entre as pessoas. Explicamos o que é a dor e que não há motivo para que continuem a sofrer por causa da mesma.

Quais as principias dificuldades que a APED enfrenta?

A principal dificuldade é este clima generalizado de desvalorização da dor. Isto começa nos bancos da faculdade e vem por aí fora.
Outra é o clima de opiofobia, muitos profissionais de saúde têm muito medo em prescrever opióides e isso constitui um entrave para o correcto tratamento da dor. E destruir mitos, destruir falsas verdades é difícil, leva tempo.

Quais as próximas iniciativas que a APED vai promover?

Em Outubro, dias 15 e 16, organizamos o terceiro congresso multidisciplinar que é uma das maneiras que encontramos para divulgar o assunto junto dos profissionais. Tentamos chamar os profissionais que já se dedicam ao tratamento da dor, mas também os clínicos gerais, neurologistas, fisiatras. Tentamos fazer um programa eclético e que atraia várias audiências. Vamos continuar a investir muito na divulgação das brochuras. Tentamos sensibilizar as instâncias do poder para este assunto e, devo dizer, temos tido, da parte da ministra da Saúde, Ana Jorge, bastante eco.