Samarcanda – Uzbequistão

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Samarcanda é a segunda maior cidade do Uzbequistão e capital da Província de Samarcanda. Samarcanda é uma cidade bem conhecida devido á sua posição central na Rota da Seda entre a China e o Ocidente, e por ser um centro islâmico para os estudos acadêmicos. No século 14 tornou-se a capital do império de Timur (Tamerlão). A Mesquita de Bibi-Khanym continua a ser um dos marcos mais notáveis ​​da cidade de Samarcanda.

Usando como guia a obra do libanês Amin Maaluf, Ana Isabel Mineiro andou pelas ruas de Samarcanda à procura do romantismo associado ao nome mágico desta cidade. O resultado é fascinante, embora pouco reste do fausto e da glória de outros tempos. Não é uma visita guiada pela cidade, rua a rua, mesquita a mesquita. Não é, tão pouco, o retratar fiel de uma época antiga ou moderna, dos costumes e religiões dos seus habitantes. Pela abordagem histórica que faz a um Oriente que julgamos já não existir, a obra “Samarcanda”, de Amin Maaluf, faz renascer no leitor todo o romantismo associado ao nome mágico desta cidade: as caravanas de camelos de passagem pela Rota da Seda, os bairros poeirentos onde se acotovelavam multidões de turbante, os palácios faustosos de emires cruéis e os seus haréns proibidos, os jardins paradisíacos, palcos de noitadas de vinho e poesia.

Foto acima: O Registan é a praça principal de Samarcanda, no Uzbequistão.

O fio da meada é a história do Manuscrito de Samarcanda, livro de poemas de um poeta persa do século XI que desaparece no naufrágio do Titanic. Benjamin Omar Lesage trazia-o do Irão para os Estados Unidos, e é a vida do poeta Omar Khayyam e as viagens de Lesage em busca da sua obra perdida que nos guiam pela antiga Pérsia e Ásia Central.

Benjamim chega a Samarcanda no início do século XX, com “curiosidade de ver o que subsistia da cidade onde desabrochara a juventude de Khayyam”. Mas já não há nem memória dos velhos bairros de Maturid ou Asfizar, ou dos jardins e palácios de outrora. A praça principal, a de Registan, está em ruínas: (…) “três gigantescos conjuntos, torres, cúpulas, pórticos, altos muros todos ornados de mosaicos minuciosos, de arabescos com reflexos de ouro, de ametista, de turquesa. E de laboriosas escritas. Tudo ainda é majestoso, mas as torres estão inclinadas, as torres estão esventradas, as fachadas escalavradas, corroídas pelo tempo, pelo vento, por séculos de indiferença; nenhum olhar se leva para estes monumentos, colossos altaneiros, soberbos, ignorados, teatro grandioso para uma peça irrisória.” Um século depois, os visitantes têm mais sorte. A permanência russa, iniciada no século XIX e terminada com o fim da URSS e a independência do Uzbequistão, trouxe o estudo arqueológico e a recuperação dos monumentos da época de Tamerlão e gerações seguintes: as mesquitas e madrassas da praça de Registan, mas também a mesquita de Bibi-Khanim, os túmulos de Shahi-Zinda, o observatório astrológico de Ulughbek e o seu mausoléu, onde repousa com o avô, Tamerlão. Os azuis e os verdes das cúpulas gigantescas remetem-nos para o ambiente das Mil e Uma Noites. Os arabescos requintados em majólica, o ouro sobre azul das mesquitas e madrassas, as ramagens floridas de azulejo que trepam por estes muros antigos, tudo tem um requinte que já não existe. Como se a lenda fosse verdadeira, e uma Samarcanda subterrânea tivesse sido construída por um rei antigo, na esperança vã de escapar ao olhar do deus da morte, para emergir agora das areias, intacta e incólume ao tempo.

Mas da época de Khayyam, é verdade que nada resta. Do oásis rico e hospitaleiro, onde “jamais algum viajante teve de pagar para se alojar ou para se alimentar”, e onde a maior dádiva do deserto, a água, jorrava de mais de duas mil fontes “todas oferecidas pela gente de Samarcanda”, nada sobrou após a passagem de Gengiscão, no século XIII. Foi preciso esperar um século para que Tamerlão decidisse fazer aqui a sua capital e se iniciasse um período em que floresceram a construção e as artes decorativas; durante trinta e cinco anos, artífices árabes, persas, da Índia e do Cáucaso, produziram obras sem rival em nenhuma parte do mundo. E são essas que podemos ver hoje, tal como NÃO são descritas por Maaluf. E, no entanto, o ambiente arcaico, as personagens de outros tempos estão lá. Há velhos de barbicha pontiaguda, casacão comprido e faca na faixa enrolada da cinta, bamboleando-se nas botas negras de cano alto dos cavaleiros. As mulheres, muçulmanas de lenços coloridos, usam vestidos de um estampado ziguezagueante sobre as calças tufadas e vendem legumes e fruta nos mercados, algumas ainda com as sobrancelhas unidas por um traço negro. Pêssegos, melões e uvas, desde há séculos que o deserto produz de tudo, com a ajuda da irrigação por ariks, os canais que aproveitam a escassa água da zona. Produz-se também algodão, fabricam-se pães achatados, doces de açúcar, pistácios e passas, como as que o cádi Abu-Taher, o mesmo que ofereceu a Khayyam o caderno que seria o seu manuscrito, tinha o hábito de comer e distribuir pelos visitantes. Interrogamo-nos, como Benjamim: “Havia algum pormenor da cena que não pudesse ter existido tal qual no tempo de Khayyam?”.

“- Os astrólogos proclamaram-no desde os alvores dos tempos e não mentiram: quatro cidades nasceram sob o signo da revolta, Samarcanda, Meca, Damasco e Palermo! Jamais elas foram submetidas aos seus governantes, a não ser pela força, jamais seguem o recto caminho, se ele não é traçado pelo gládio. Pelo gládio é que o profeta domou a arrogância dos mequenses, pelo gládio é que eu domarei a arrogância da gente de Samarcanda!”. Assim ameaçava Nasr Khan – senhor da Transoxiânia, cujo centro era Samarcanda – e, provavelmente, todos os que da cidade tentaram tomar posse. Venciam os exércitos, mas não o povo. Só assim se explica que após guerras e massacres, dominada por turcos, mongóis e russos, a cidade mantenha o seu carácter. Os habitantes são, na maioria, tajiques de língua de origem persa, hábeis no comércio, pastores semi-nómadas reciclados pela força das circunstâncias políticas. Terminaram as guerras de clãs e os raids sobre o gado dos vizinhos, mas a audácia e o sentido de independência estão lá. Abunda o pequeno negócio familiar, como os almoços no pátio da casa, que os restaurantes são escassos. Discute-se o preço, as mulheres servem a costumeira sopa de grão-de-bico, carneiro e batatas. Os donos da casa juntam-se a nós, sem salamaleques nem distâncias, só uma simpatia sábia e alguma curiosidade. À sombra das grandes cúpulas das mesquitas de Tamerlão continuam a crescer a tolerância e o individualismo, regras básicas seculares da Ásia Central.

As avenidas construídas pelos soviéticos são rectas e largas, os prédios de cimento cinzentos e feios. Mas nas zonas antigas, nas mesquitas seculares, no mercado de Siab ou no observatório de Ulughbek revivem-se as épocas passadas num piscar de olhos. “Uma brisa leve, a areia põe-se a voltejar, as roupas entufam-se, toda a praça se cobre de um véu irreal.” – é Samarcanda que renasce do deserto mais uma vez, mil e uma noites após cada conquista.

Palavras

“Pode pensar-se que, na época, os habitantes de uma cidade não tinham qualquer razão para preferir tal soberano turco a tal outro. Eles rezavam, no entanto, pois o que temiam era a mudança de senhor, com o seu cortejo de massacres, sofrimentos, as suas inevitáveis pilhagens e depredações. Era preciso que o monarca ultrapassasse todos os limites, submetesse a população a tributos exagerados, a perpétuos vexames, para que acabassem por desejar ser conquistados por outro. (…)

Festeja-se, pois, em Samarcanda, a guerra evitada. A imensa Praça de Ras-al-Tak exubera de clamores e de fumos. A cada muro apoia-se o estendal de um mercador ambulante. Sob cada lampadário improvisa-se uma cantadeira, um arranhador de alaúde. Mil círculos de curiosos fazem-se e desfazem-se em torno dos contadores, dos quiromantes, dos encantadores de serpentes. No centro da praça, sobre um estrado feito à pressa e mal seguro, trava-se a tradicional justa dos poetas populares que celebram Samarcanda, a incomparável, Samarcanda, a inexpugnável. O julgamento do público é instantâneo. Elevam-se estrelas, outras declinam. Um pouco por toda a parte acendem-se fogueiras. Está-se em Dezembro. As noites já são agrestes. No palácio os jarros de vinho esvaziam-se, quebram-se, o cã distingue-se por uma embriaguez jovial, ruidosa e conquistadora.”

“A despeito de um tal apocalipse, Samarcanda aparece quase como uma privilegiada, porquanto iria um dia renascer dos seus escombros para se converter na capital de um império mundial, o de Tamerlão. Ao contrário de tantas outras cidades, que nunca mais se reerguerão, e nomeadamente as três grandes metrópoles do Khorassan, onde durante muito tempo se concentrou toda a actividade intelectual desta parte do mundo: Merv, Balkh e Nichapur, às quais convém acrescentar Rayy, berço da medicina oriental, cujo próprio nome será olvidado; ter-se-á de aguardar para ver renascer, num sítio vizinho, a cidade de Teerão.”

“Passava uma caravana, uma curta caravana; ela não contava mais de seis ou sete camelos de bactriana, de pêlo espesso, cascos espessos. O velho cameleiro parara, não longe de mim, em frente da locanda de um oleiro, retendo contra o peito um anho recém-nascido; propunha uma troca, o artífice discutia; sem arredar as suas mãos da jarra nem da roda, ele indicava com o queixo uma pilha de terrinas vidradas. Eu observava os dois homens, os seus barretes de lã negra debruada, as suas vestes estriadas, as suas barbas ruivacentas, os seus gestos milenários. Havia algum pormenor da cena que não pudesse ter existido tal qual no tempo de Khayyam?”

Histórias da História

Se Amin Maaluf dedicou parte da vida ao jornalismo, a restante parte foi dedicada a produzir obras sobre o que tão bem conhece: o Médio Oriente e o Norte de África, seja em ensaios que se debruçam sobre a sua actualidade social, como “As Identidades Assassinas”, ou em romances que contam a vida de personagens históricas, como Mani, o fundador do maniqueísmo, em “Jardins de Luz”, ou o poeta persa Omar Khayyam, em “Samarcanda”. Mais do que a verdade histórica, as suas obras recriam-nos ambientes e épocas com uma verosimilhança que parece inquestionável. A editora Difel tem publicado toda a sua obra traduzida em português, que inclui, para além dos títulos citados, “Leão, o Africano”, “Escalas do Levante”, “O Século Primeiro depois de Beatriz”, etc.

Samarcanda

Roteiro para Cruzar o Uzbequistão

Ao percorrer o Uzbequistão, o visitante percebe toda a riqueza do legado deixado pelos diversos invasores, repleto de edifícios religiosos, mesquitas e mausoléus. O itinerário proposto passa por Tashkent, a capital, Khiva, Bukhara e Samarcanda, a legendária cidade da Rota da Seda. A Praça de Registan, um dos locais que invocam a memória das Mil e Uma Noites, as ruínas da Mesquita de Bibi Khanym e o Mausoleu de Tamerlão, são alguns lugares de visita obrigatória.

Preço: Passagens aéreas à partida de Paris, transportes internos em autocarro ou avião, estadia de sete noites em hotéis com pensão completa e visitas desde 1412 euros.

Contacto: Nouvelles Frontières. Telefone: 213191500; 226061690 (www.nouvelles-frontieres.fr)

“A Casa Dourada de Samarcanda” por Rui Guerreiro

“Espelho do Mundo”, “Jardim das Almas”, “Jóia do Islão”, “Pérola do Oriente”, “Centro do Universo”. Estes são apenas algumas designações que poetas e artistas já usaram para descrever Samarcanda, a segunda maior cidade do Uzbequistão e que chegou a ser capital deste antigo membro da União Soviética.

A cidade é tão antiga quanto Roma ou Babilónia: vestígios arqueológicos demostram a presença humana há mais de 40 mil anos e revelam a existência de uma sociedade organizada desde o século VI a.C., o que facilmente se explica pela sua localização geográfica.

Situada numa região de deserto, Samarcanda é quase como um oásis. Localiza-se num vale irrigado pelo rio Zerafshan e ainda hoje é o grande centro do comércio de produtos agrícolas da região. Com cerca de 550 mil habitantes, a cidade distingue-se do meio que a envolve pelos seus formosos jardins e o seu nome é dos mais evocativos das caravanas da Rota da Seda. Conta-se que quando Alexandre, o Grande, avistou pela primeira vez a cidade terá exclamado: “Ouvi dizer que a cidade era linda, mas nunca imaginei que pudesse ser tão bonita e majestosa”.

E é exactamente para Samarcanda que Rui Guerreiro segue em busca de um fantástico tesouro escondido ali pelo grande Alexandre da Macedónia (ou para salvar Rasputine das malhas da terrífica prisão de Samarcanda, chamada de a Casa Dourada), pelo menos de acordo com os apontamentos de Lorde Byron.

Na época em que Rui visitou a cidade, mal terá tido tempo para apreciar a sua arquitectura, tal a confusão e velocidade dos acontecimentos e perturbado que estava com a eventualidade de se cruzar com o seu duplo.

Mas hoje é imprescindível despender tempo a admirar as várias obras que adornam as praças e ruas da cidade. Um desses edifícios é o mausoléu Guri-Emir, cuja construção foi ordenada em 1404 para receber a dinastia dos Timur. As linhas arquitectónicas e a riqueza dos mosaicos multi-coloridos que revestem a obra atraem o olhar.

O coração da cidade é a Registan, que significa literalmente “local arenoso”; a praça é o ponto de confluência de seis estradas desde e para as portas da cidade, sendo emoldurada por três majestosos edifícios: a Madrassa Ulugh Beg (1420), Sher Dor (1636) e Tilla Kari (1660). Todos eles revelam uma enorme opulência, tanto no tamanho como na decoração: os azulejos e mosaicos em tons azul-turquesa e os mármores distinguem estas obras exemplares da arte islâmica da Idade Média e, por isso, merecedoras da protecção da UNESCO.

Depois de uma visita demorada a qualquer um dos edifícios anteriores, é imprescindível um passeio pela Shahi Zinda, que consiste em onze mausoléus, construídos entre os séculos XIV e XV. Logo à entrada, um enorme portal dá acesso a uma escadaria que desemboca numa espécie de museu ao ar livre: caminhando pelos corredores de Shahi Zinda vêem-se túmulos em ambos os lados, que competem entre si em termos de beleza – uma excelente oportunidade para apreciar de perto as obras compostas em azulejos e mosaicos.

Outro edifício digno de nota, apesar de em ruínas, é a mesquita Bibi Khanum, cuja construção teve início em 1399, após a campanha vitoriosa de Timur na Índia. A ideia deste governador do Turquestão, Transoxiana e Samarcanda era reunir numa só obra tudo o que tinha visto noutros países. Para isso foram chamados arquitectos, artistas, artesãos e contramestres de vários países do Oriente.

Já no Observatório de Ulugh Beg, onde astrónomos determinaram as posições do Sol ou da Lua com a ajuda de um gigantesco instrumento de mármore, a decoração em mosaicos e azulejos de várias cores continua a imperar – nesta obra a insatisfação de Timur foi notada quando o herdeiro da coroa mandou matar os dois homens responsáveis pela sua arquitectura.

Outro local de grande atracção turística fica nos arredores da cidade e trata-se do memorial e complexo de investigação Imam Ismail al-Bukhari, cujo trabalho teológico é a segunda obra mais lida no mundo muçulmano, depois do Corão. O túmulo de Imam al-Bukhari é um dos pontos de encontro para milhares de peregrinos.

Mas, apesar de ser uma cidade que mantém praticamente intactos os traços do passado e onde o culto dos mortos assume uma grande importância – como se pode observar pela arquitectura -, Samarcanda não é uma cidade-fantasma. A melhor prova disso encontra-se no mercado principal, um gigantesco bazar ao ar livre, próximo da mesquita Bibi Khanum, onde imperam as cores e os cheiros fortes. Enquanto se passeia entre os mercadores, há que estar atento a possíveis furtos e não descurar a postura. Apesar de não haver o risco de acabar amarrado à boca de um canhão, como acontece a Corto, é aconselhável ter em mente que se encontra num país em que as condições de segurança, devido à sua posição geográfica, são consideradas precárias.

Informações úteis

O site www.advantour.com contém várias informações sobre como viajar para o Uzbequistão.

Como ir

Há voos diários que ligam Tasckent, a capital uzbeque, a Samarcanda a partir de 90 euros. De Lisboa ou Porto para a capital do Uzbequistão não há voos directos. Uma das melhores alternativas será fazer a viagem com escala em Roma, viajando pela TAP e pela Uzbekistan Airways (ida e volta a partir de 1800 euros, taxas incluídas). Outra hipótese é voar de Frankfurt para Tasckent pela Lufthansa (ida e volta a partir de 800 euros). A mesma companhia realiza o trajecto Lisboa-Frankfurt a partir de 450 euros.

Condições de entrada/segurança

É obrigatório um visto de entrada. As condições de segurança são precárias, principalmente nas regiões fronteiriças. É de evitar o transporte de grandes valores e é aconselhável manter o passaporte em lugar seguro.

Cuidados de saúde

É aconselhável beber apenas água engarrafada ou filtrada e ter as vacinas em dia contra a tuberculose, difteria, tétano, pólio, hepatite A e B e febre tifóide.