Seul – Capital da Coreia do Sul

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Ao turista, Seul oferece a quietude dos Jardins Secretos dos seus palácios, a tentação de gigantescos mercados de rua e o frenesim de milhares de pessoas e carros circulando, todos os dias e a todas as horas. Larga, alta, talvez feia, mas moderna, rica, sempre acordada. E segura, como há poucas.

Comecemos por ser claros. Há quem vá e não goste nada: a cidade de Seul é excessivamente grande, irritantemente barulhenta, perigosamente poluida, aborrecidamente incaracterística. Houve até quem se queixasse de que os seus habitantes falam…coreano! Mas, a par deste rol de críticas (a que se acrescentarão os preços elevados, as águas sujas do rio Han, a omnipresença dos veículos a motor), é preciso deixar igualmente claro logo de início que numerosos outros visitantes estrangeiros não comungam destas visões desagradadas da capital sul-coreana. Pelo contrário.

Revela-se surpreendentemente pouco barulhento o intenso e permanente tráfego automóvel. Devido às misturas de carburante usado, naturalmente, mas também pela idade média baixa do parque automóvel, acrescida do facto de, apesar de conduzirem com temeridade, os coreanos usarem raras vezes o claxon. Os engarrafamentos são apenas um pouco maiores do que os de certas zonas de Lisboa e do Porto às horas de ponta. Se é comum os peões usarem máscaras que os protegem da poluição, esta não parece superior à que espera o visitante na zona comercial – e a capital sul coreana é um gigantesco bazar ao ar livre e nas passagem subterrâneas e corredores que dão acesso às estações de metropolitano – de qualquer grande cidade europeia.

Há bairros onde os residentes e o turista podem viver, isto é, comer, fazer compras e divertir-se vinte e quatro sobre vinte e quatro horas.

Por entre aqueles altos e compridíssimos blocos de apartamentos – um tanto soviéticos, convenhamos, cada um com um garrafal número desenhado na parede lateral, tipo hangar -, por detrás daquelas mega-avenidas, duas vezes a largura da Avenida da Liberdade, um olhar atento e alguma persistência descobrirão pequenos templos, palácios grandiosos, jardins e largos espaços arborizados em magníficas encostas às quais não chega o bruá-á citadino.

Seul, aliás, desenvolve-se em torno de vários núcleos de algum modo autosuficientes. Exemplo: para as comitivas dos chefes de Estado e primeiros-ministros que participaram na ASEM III, o centro da cidade não poderá ter deixado de ser a zona de arranha-céus, jardins e larguíssimas avenidas em torno do Coex, um supermoderno centro comercial que deixa o Colombo a considerável distância; em contraste, o turista de mediano poder de compra naquele momento de visita a Seul ter-se-á relacionado com a cidade a partir do City Hall, sendo mesmo provável que não tenha cheguado a atravessar sequer as larguíssimas avenidas para cujo controlo durante a mesma cimeira a polícia sul-coreana necessitou de trinta mil homens.

A capital da Coreia do Sul é a quinta mais extensa cidade do mundo, com os seus 11 milhões e meio de habitantes (densidade por km2 um pouco maior do que Barcelona, um pouco menor do que Paris). Não admirará, por isso, que se sinta esmagado pela massa humana que nela circula diariamente. Vale a pena, de resto, passear-se despreocupadamente pelas ruas apenas para observar a torrente de pessoas correndo, literalmente correndo para os empregos. Como se lhes pesassem na consciência de tão leves as cinquenta horas de trabalho semanal e a escassa semana de férias anuais de que usufruem em média. Ou como se procurassem simplesmente não perder esse “milagre económico do rio Han”, que fez catapultar a pequena capital de uma das economias agrárias mais atrasadas do mundo, quarenta anos depois, para os lugares dianteiros entre as economias mais avançadas (liderança em electrónica, semicondutores e automóveis).

Como acontece quase sempre a quem disponha de poucos dias, a melhor forma de fazer uma ideia da cidade é integrarmo-nos nos circuitos oferecidos pelo turismo local. Três dezenas e meia de autocarros, alguns deles com guias que falam inglês, percorrem a intervalos de 25 minutos um itinerário fixo com paragens nos locais que o turista não deve ignorar: os grandes palácios históricos, os quatro maiores mercados de rua (onde de tudo se pode comprar e a algumas coisas se torna difícil dizer não – peles e artigos desportivos a preços incrivelmente baixos, relógios, sedas, chás Ginseng a prometerem vigores utópicos), os templos, os parques, os grandes centros culturais, os hotéis de luxo, alguns dos quais das mil e uma noites. A vantagem deste esquema é que, por um pequeno acréscimo, se pode comprar um bilhete válido por um dia inteiro e que permite ao passageiro sair e entrar as vezes que quiser em qualquer das 28 paragens.

Feito esse reconhecimento elementar (complementado, de preferência, por um passeio no rio Han, cujas margens se unem por mais de dezena e meia de pontes na zona urbana), o turista dispõe de uma boa rede de transportes públicos. A começar pelo metropolitano, digno dos melhores encómios. É veloz, vai praticamente a todo o lado (figura no oitavo lugar entre os mais compridos do mundo), mostra-se espaçoso, apesar dos quatro milhões de passageiros que o usam cada dia, e custa cento e poucos escudos ao câmbio de há um mês.

Não precisa de esperar mais que o tempo de levantar o dedo o viajante que queira transportar-se de táxi: são 70 mil, dizem as estatísticas. O problema é o da escolha, entre carros normais e carros mais confortáveis. Os primeiros são, naturalmente, mais baratos, mas os condutores não só não sabem falar inglês como se revelam incapazes de decifrar uma direcção que não se apresente escrita em caracteres coreanos. Os segundos – o dobro do preço, o que significa uma diferença de alguns bons euros, dadas as largas distâncias dentro da cidade – distinguem-se pela cor preta e são mais facilmente encontráveis nos hotéis do que nas ruas da cidade.

Apesar dos preços em conta dos transportes públicos, visitar a cidade, como o leitor já concluiu, fica caro. Até porque o europeu do sul “compete” com uma população local cujo ordenado mínimo psicológico (uma espécie de barreira aquém da qual nenhum empregador se atreve a descer) se diz andar à volta de 1500 euros mensais. As verdadeiras poupanças encontrá-las-emos, pois, nos mercados de rua, em que as tais sedas, as tais peles, os tais artigos de desporto bem negociados podem ajudar a equilibrar os gastos com a viagem e a estadia. Com uma saída interessante para os mais novos que falem e escrevam bem a língua inglesa: experimentem o popular método – barato no plano financeiro e enriquecedor no plano cultural – do austríaco Peter (ver “O último muro da guerra fria”): alojar-se em casa de uma família sul-coreana em troca de lições de inglês.

Por fim: a simpatia e a segurança .

Alguns portugueses com o conhecimento feito da experiência de ali viverem há largos meses e até anos previnem-nos: há uma linha, uma espécie de barreira, invisível mas barreira, para lá da qual está a intimidade do sul-coreano e a que ao estrangeiro é vedado acesso. A novidade seria o contrário, como sabemos do contacto com outros povos e não só asiáticos. De qualquer modo, para as necessidades de quem se desloca para uma, duas semanas de passeios e breves contactos de rua, de comércio, de restauração, há disponíveis nos sul-coreanos doses largas de simpatia e prestabilidade numa paisagem humana em que as mulheres (atenção, elas gastam no mundo a maior percentagem de produtos de beleza) brilham todo o tempo.

Seul tem ainda para nos oferecer algo de inesperado: uma sensação agradável de segurança. Tão palpável, que o visitante a pode comprovar logo no dia da chegada. Imaginemos que fica num dos hotéis em volta do Citty Hall e que decide jantar na Torre do Milénio, uma excelente maneira de iniciar a transição da comida ocidental para os paladares coreanos enquanto admira a feerie urbana de um 33º andar à cunha de jovens autóctones. Acabado o jantar com um expresso (parece não haver café ou restaurante, por mais tradicionais, que não estejam em condições de responder afirmativamente a essa exigência portuguesa), percorra a pé a distância que o separa do hotel. Verá que, das dezenas, centenas de pessoas com quem se cruza, mesmo junto das pequenas tendinhas de comes e bebes – onde algumas vezes poderá tropeçar em gente mais bebida e outra claramente necessitada – nunca receberá um olhar, um gesto, uma sugestão hostil, sequer agressiva. Um bem turístico precioso, porque cada vez mais raro. E uma aquietadora promessa para o Mundial de Futebol, cuja organização a cidade partilha com Tóquio, em 2002.

ZDM, o Último Muro da Guerra Fria

Os prospectos turísticos não enganam. O convite é para uma viagem até próximo do inferno, uma peregrinação pelos locais onde a liberdade derrotou a tirania comunista. Ele, o inferno, ela a tirania comunista, estarão ali, ao alcance da nossa vista, para lá da paisagem que se espraia pelos quatros quilómetros da Zona Desmilitarizada (ZDM), entre o Observatório Dora e os campos para lá do rio, ao longe.

Por um daqueles acasos que nos fazem agradecer aos deuses inesperadas simpatias, acompanham-nos na viagem desta manhã dois veteranos da guerra da Coreia. Alf e Terry escalavam Seul por breves horas, a caminho da Nova Zelândia. Mas o apelo da memória falou mais forte e obrigou-os a alterarem o bilhete, para poderem visitar com tempo os campos onde há meio século combateram contra Kim Il Sung e respectivos aliados russos e chineses, integrados na coligação de 16 países que apoiou a Coreia do Sul contra o irmão comunista do Norte – Alf, numa unidade de infantaria; Terry, numa unidade de artilharia.

Campos cultivados do lado direito, arame farpado na berma da esquerda, seguimos agora pela Estrada da Liberdade (os veteranos, um turista dinamarquês cuja mulher trabalha para os chefes de Estado e de governo, reunidos na III Cimeira da ASEM, e Peter, um jovem austríaco que negociou aulas de inglês por alojamento numa família sul-coreana). Terry não se cansa de exclamar o seu espanto perante o desenvolvimento que testemunha: “É fenomenal! Seul era uma pequena cidade, chegou ao fim da guerra toda destruída!”. Mas, ao mesmo tempo, sente-se frustrado porque não encontra sinais do país que conheceu. Será preciso aproximarmo-nos do perímetro militar da unidade a quem incumbe enfrentar o exército inimigo para que os veteranos se animem. “Era isto que víamos: milhares e milhares de árvores, colinas, postos militares, nenhuma casa”.

Um soldado com cara de menino de liceu explica-nos, num inglês liofilizado – que o grupo de norte-americanos entretanto chegado diz não conseguir descodificar -, os gloriosos feitos das forças armadas locais contra os invasores do passado (chineses e japoneses) e contra os irmãos que tentaram anexá-los em 1950.

Há ainda um filme para ver no “Hall do Anti-comunismo”, exaltando a heroicidade do Sul e execrando a perfídia do Norte; e o observatório Dora, no alto de uma colina donde, em dias que não o de hoje, cheio de espessa neblina, se podem avistar, para lá da linha de demarcação, “soldados, casas, quintas, escolas, apartamentos, a bandeira e outros objectos de propaganda” da Coreia do Norte. Aproximamo-nos agora da boca do célebre terceiro túnel, interceptado em 1978 quando levava já 1635 metros de comprimento, quase meio quilómetro dentro da Coreia do Sul. “Atenção, máquinas fotográficas e vídeos proibidos!”, avisam os militares. Atenção já agora também: doentes de coração, hipocondríacos e gente que nunca faça exercício, abstenham-se de descer – fica a 73 metros de profundidade. Alf deixa-se ficar à superfície, mas Terry, máquina fotográfica escondida no blusão, traz-lhe a imagem do buraco escuro através do qual, afiançam as autoridades do lado de cá, o Norte pretendia infiltrar milhares de homens (“uma divisão por hora, mais os respectivos equipamentos”, dizem os prospectos turísticos) para um ataque de surpresa ao Sul.

Já no caminho do regresso, mas ainda dentro do mítico paralelo 38 – onde continua de pé o último muro da guerra fria -, aguarda-nos a chamada Ponte da Liberdade, uma estrutura de madeira construída sobre o rio Imjin de propósito para permitir a entrega de 12.773 prisioneiros de guerra, em 27 de Julho de 1953. A linguagem anti-comunista permanece, mas a virulência dos ataques ao Norte atenuou-se um pouco, diz quem fez esta mesma visita antes do encontro entre os presidentes Kim Il Song e Kim Dae-jung, em Junho, e dos claros sinais de reaproximação que se lhe seguiram.

A viagem custa um pouco menos de 10 contos. Inclui almoço tradicional sul-coreano (obrigatório descalçar-se à entrada do restaurante e comer com pauzinhos, sentado no chão) e uma visita complementar, no regresso a Seul, ao Memorial da Guerra. Momento de compreensível emoção para os dois veteranos ingleses. Mas que pode igualmente tanger cordas sensíveis a um português que goste de ver claramente visto tudo o que estas oportunidades lhe oferecem. Cá fora, gravados nos mármores escuros da parede do lado direito, entre os mortos em combate integrados em unidades norte-americanas do Hawai que participaram, como Alf e Terry, na mortífera Guerra da Coreia (1950-53), alinham-se apelidos que soam familiares: Coelho, Demello, Correa, Camacho…

Subdivisões

Seul é dividida em 25 divisões administrativas da Coréia do Sul gu (구) (distrito), que são sub-divididas em 522 divisões administrativas da Coréia do Sul dong (동) (vizinhança), que são sub-divididas em 13.787 tong (통), que são subdivididas em 102.796 ban (반).

Distritos de Seul

Dobong-gu (도봉구)
Dongdaemun-gu (동대문구)
Dongjak-gu (동작구)
Eunpyeong-gu (은평구)
Gangbuk-gu (강북구)
Gangdong-gu (강동구)
Gangnam-gu (강남구)
Gangseo-gu (강서구)
Geumcheon-gu (금천구)
Guro-gu (구로구)
Gwanak-gu (관악구)
Gwangjin-gu (광진구)
Jongno-gu (종로구)
Jung-gu (중구)
Jungnang-gu (중랑구)
Mapo-gu (마포구)
Nowon-gu (노원구)
Seocho-gu (서초구)
Seodaemun-gu (서대문구)
Seongbuk-gu (성북구)
Seongdong-gu (성동구)
Songpa-gu (송파구)
Yangcheon-gu (양천구)
Yeongdeungpo-gu (영등포구)
Yongsan-gu (용산구)