O Sexo do Bebê

O Sexo do bebê – Os segredos da herança genética

«O que não se parece com nada não existe», disse o poeta francês Paul Valery. Esta afirmação é especialmente correcta na herança biológica, esse legado anatómico, fisiológico e de comportamento que os pais transmitem à sua descendência.

Os filhos parecem-se com os pais, porque recebem cerca de 50 por cento do património genético de cada um dos seus progenitores. E esta lei cumpre-se à regra em todos os seres vivos.

Um encontro que já está codificado

Ao penetrar o espermatozoide no óvulo, no momento da fecundação, os 23 cromossomas do pai vão juntar-se com os 23 cromossomas da mãe. Neste momento, a célula embrionária, destaca-se do resto das células, realiza uma divisão redutora, de forma que o novo ser tenha também 23 pares de cromossomas.

A partir deste momento, a célula ou o ovo fecundado divide-se primeiro em duas células, cada uma das quais se divide em outras, e assim sucessivamente. Enquanto isto acontece, o óvulo continua a sua trajectória pela trompa do Falópio em direcção ao útero, onde se produzirá a implantação.

Os genes são segmentos de ADN que contêm informação. Alojam-se nos cromossomas, colocados um ao lado do outro, e têm a missão de transmitir a herança genética de geração em geração. Nos genes residem as insígnias que marcam as características de um indivíduo: os traços físicos e psíquicos, o talento, a inteligência e também os símbolos que originam doenças hereditárias e a propensão para sofrer de afecções ao longo da vida.

O projeto do Genoma Humano

Catalogar os 23 cromossomas humanos, localizar todos os genes, identificar as suas funções. Este é o fantástico objectivo do projecto internacional do Genoma Humano, que abrange dois mapas diferentes mas complementares.

O objectivo do primeiro é descobrir a informação contida em cada fragmento de ADN. Com o segundo, pretende-se localizar a localização dos genes dentro dos cromossomas e a sua posterior descodificação, para conhecer a função exacta que realizam.

«À medida que se vão completando os mapas, existirá a possibilidade de encontrar o gene responsável de uma determinada doença com maior facilidade.

Se, por exemplo, existe um grupo suficientemente amplo de famílias que sofrem de uma enfermidade genética, poder-se-á conhecer a fisiologia e bioquímica da enfermidade rapidamente e com muito menos análises que até agora», explica José Fernandez Piqueras, catedrático de genética da Universidade Autónoma de Madrid.

Um mapa capaz de decifrar a vida

O Genoma Humano é a representação standard de todos os genes e constitui o armazém que permitirá que tudo o que for relacionado com a genética, avance com maior fluidez e facilidade. Pode comparar-se a um mapa cartográfico, em que em vez dos rios, vales ou montanhas, se desenham segmentos de ADN.

Através da engenharia genética, colocar-se-ão todas as combinações possíveis de ADN, o que significa que poderão ser reproduzidas uma infinidade de vezes para que possam ser estudadas. E, com sofisticados programas informáticos, unir-se-ão todos esses segmentos de ADN que compõem o quebra-cabeças molecular do organismo humano.

No ano de 2010, termina o mapa da genética humana, e isso constituirá um grande passo na história. Mas isso só será o início de uma conquista que não fez mais do que iniciar-se.

Que os filhos se pareçam com os pais é uma forma extraordinária da sua integração no clã familiar.

Quando as mães abraçam os seus filhos pela primeira vez começam de imediato a achá-los parecidos: « O nariz, do avô; as mãos, da mãe; os olhos, de quem serão?».

E o inquérito não cessa até completar as parecenças físicas do recém-nascido. Procurar-lhe as semelhanças é mais uma manifestação de amor, um desejo de integrar esse desconhecido pequenito no ambiente familiar.

Algumas parecenças não se manifestam

O filho herda, aproximadamente, 50 por cento do património genético dos seus pais. Quando a qualidade que transmite um gene determinado prevalece, trata-se do gene dominante.

Pelo contrário, se a propriedade desse gene não se manifesta, estamos perante um gene recessivo. No caso de que as ordens que expressam sejam igualmente fortes ou débeis, os resultados podem ser surpreendentes. Por exemplo, se o pai tem o nariz curto e recto e a mãe largo e respingão. Quando ambos os caracteres são recessivos, pode aparecer outro traço da genealogia familiar.

Impõe-se a lei do mais forte

Quais os traços que se transmitem com predominância?

O cabelo negro e escuro impõe-se sobre o claro, ruivo ou louro. As cabeleiras frisadas vencem as lisas. A pele de tom escuro prevalece sobre a tez clara. Também são predominantes as covinhas na face e no queixo.

A forma da cabeça pode ser um perfeito distintivo familiar, ainda que influam outros factores. As caras largas e ovaladas, dominam perante as redondas e pequenas. Quanto à altura, se os pais são altos, os filhos têm tendência a superar a sua altura.

Ser muito peludo, sobretudo nas mãos e nos dedos, é uma característica que se impõe à ausência ou escassez de penugem. Herdam-se também com predominância o tamanho das mãos, grandes ou pequena; os dedos largos e finos, ou curtos e rechonchudos.

O mosaico da herança genética abrange aspectos tão variados e curiosos que se revelam até ao modo de cruzar os braços, as pernas ou as mãos; a separação ou não do lóbulo da orelha; a disposição do seu formato para a frente ou para trás.

Uma infinita gama de possibilidades que nunca nos deixará de surpreender e que, graças aos avanços da ciência , poderemos conhecer cada vez com maior precisão.

Que é a habilidade cognitiva? Pode-se medir? Nela influi o ambiente ou a herança intelectual?

À capacidade de suscitar, dirigir e controlar as próprias operações mentais chama-se inteligência. Assim, somos capazes de ver, dizer, formar conceitos, calcular, recordar, sentir graças a ela. Todas estas faculdades constituem o eixo do intelecto e estão determinadas pela herança e pelas influências muito precoces.

De acordo com os nossos projetos

O peculiar da inteligência humana, é sem dúvida, utilizar essas operações mentais para conseguir objectivos concretos. É mais correcto, pois, falar de uma memória inteligente, uma conduta inteligente, um sentimento inteligente. «Torna-se complexo descobrir as percentagens de hereditariedade e de influência ambiental que sobressaem na inteligência – explica Fernandez Piqueras, catedrático de genética da Universidade Autónoma de Madrid -.

Só se podem averiguar, ainda que de uma forma indirecta, mediante estudos epidemiológicos de gémeos homozigóticos. Os últimos trabalhos realizados revelam uma percentagem de herança genética sempre abaixo dos 50 por cento. Portanto, a influência do ambiente é muito alta».

Às vezes realizam-se testes de inteligência para procurar, por exemplo, dentro de um grupo muito homogéneo de crianças de uma escola, as causas porque algum aluno desse grupo não alcança o nível do resto da classe.

«Do ponto de vista genético, estes testes não servem para averiguar se uma pessoa é mais ou menos inteligente – garante Fernandez Piqueras -, porque não têm uma base genética. Mas podem ser estudados mediante testes, os atrasos mentais devidos a causas genéticas determinadas, por exemplo, o síndroma de Down».

Nas doenças hereditárias ligadas ao sexo, as mulheres são portadoras, mas só os homens sofrem delas. Nestes casos, a lei permite a selecção de sexo através de fecundação “In Vitro” com sémen de doador.

A disputa começa logo no berço. Mal a criança abre os olhos e pestaneja pela 1ª vez começam os avós e tios a rivalizar na descoberta de parecenças: não é verdade que o queixo dele é anguloso como o do pai? E o nariz arrebitado? Deve ter ido buscar ao tio. Ou será mais como o da mãe? Só com o decorrer dos anos porém, se revelará com quem a criança realmente se parece mais (ou é mais parecido?).

Como é que tais semelhanças ocorrem? Como funciona a hereditariedade?

“Os planos de construção” segundo os quais o ser humano é formado, estão registados nas células do seu corpo. Aí se concentram as unidades de informação (genes) distribuídos organizadamente por cromossomas.

Mas cada célula não dispõe indiscriminadamente de genes e cromossomas. Todas contêm o mesmo: cópias do conjunto de cromossomas que resultou da fecundação. Isto acontece não em relação ao seu conteúdo mas relativamente à estrutura e quantidade que, num ser humano saudável é sempre igual: 46 cromossomas organizados 2 a 2 – cromossomas homólogos. Estes cromossomas contêm no conjunto entre 10.000 a 100.000 genes.

Estas células contêm cada uma, apenas uma das metades de cada conjunto de cromossomas, para que, assim, o filho venha a receber uma do pai e outra da mãe, as 2 metades que constituirão o seu património genético.

Não se pense, no entanto, que cada ser humano tem de legar sempre a mesma das suas “metades” a todos os seus filhos. Pelo contrário, em cada óvulo e em cada espermatozoide existe uma combinação de elementos hereditários que pode ser completamente diferente.

Esta é estabelecida quando do desenvolvimento meiótico da célula que leva à formação do óvulo e da célula que leva à formação do espermatozoide. Em cada uma dessas células, os cromossomas trocam genes entre si de modo aleatório, misturando assim o se património genético.

Nenhum pai poderia portanto gerar 2 filhos idênticos, cada criança corporiza uma combinação individual dos genes dos seus pais. A única excepção são os gémeos verdadeiros, ou seja, provenientes do mesmo ovo e que têm a mesma herança genética. O momento da união do óvulo com o espermatozoide determina a maior parte das características de uma criança, ou o seu aspecto físico, desde a cor do cabelo até ao formato das unhas dos pés.

Há, no entanto, que distinguir entre os caracteres sujeitos à influencia das condições de vida, como a estatura ou peso, e aqueles que se manterão constantes ao longo de toda a vida, tais como as impressões digitais, o tipo de cabelo e o grupo sanguíneo, os quais servirão para exemplificar o funcionamento da hereditariedade.