Sindrome de burnout – Stress e Exaustão Atinge Medicos Portugueses

Síndrome de burnout – Stress e Exaustão Atinge Medicos Portugueses 

Os médicos são uma classe profissional propícia a sofrer de exaustão. O foi tema de simpósios promovidos pela Ordem dos Médicos.

A iniciativa, que percorreu o País, visou alertar para o problema e conhecer a realidade nacional. O grupo de trabalho da OM deparou-se com uma realidade complicada ao verificar um aumento do número de casos de burnout.

Perda de entusiasmo. Exaustão. Dificuldades de relacionamento pessoal e profissional. Cinismo. Ineficácia. Considera que está a sofrer de todos estes “males”? Repara que anteriormente não estavam presentes, mas agora são um estado de espírito constante? Nesse caso, o alerta é: Verifique se não está a sofrer de burnout, sinónimo de síndrome de exaustão e esgotamento profissional.

O psicólogo norte-americano Herbert J. Freudenberger define a síndrome de exaustão como “um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”.
A psiquiatra Antónia Frasquilho explica: “A síndrome de burnout ou exaustão só afecta as profissões que exigem grande dedicação, muita responsabilidade e em que há necessidade de contacto com o público”.
A Ordem dos Médicos (OM) revela-se preocupada com o crescente número de profissionais de saúde a demonstrar alguns dos sintomas acima descritos.
Nesse sentido vai empreender um estudo nacional para conhecer a verdadeira dimensão do problema.
Mas já durante o ano de 2009 a OM promoveu por todo o País simpósios para esclarecer e alertar para este problema.
A iniciativa terminou em Lisboa. Isabel Caixeiro, presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos, fala sobre os simpósios: “A síndrome de exaustão – Burnout tem vindo a ser identificada, com frequência crescente, nos profissionais de saúde, com repercussões significativas na qualidade do seu desempenho técnico e da sua motivação. Consideramos importante saber identificar, intervir e principalmente prevenir o seu desenvolvimento, para o que contamos com intervenções de reconhecidos especialistas”.
Fernando Couto dos Santos, presidente da Comissão Parlamentar de Saúde, considera que “a OM deve prosseguir com a tarefa de prevenção relativamente ao burnout”.
Quando falamos de Medicina, os médicos têm um discurso sempre com forte pendor para a prevenção. Também na síndrome de exaustão é possível prevenir ou evitar o crescimento deste mal estar.
A ministra da Saúde, Ana Jorge, esteve presente no simpósio que decorreu em Lisboa, em Março. Na sua intervenção preferiu sublinhar que falava enquanto pediatra e da sua experiência médica. Foi baseada nela que defendeu a necessidade de “criar estratégias de prevenção, mas também terapias de grupo e métodos de organização eficazes, pois estes facilitam o trabalho de equipa que é importante no meio hospitalar”.
Ana Jorge continuou ainda a explicar que “a partilha de responsabilidades é importante, tal como é fundamental colocar o médico a falar dos seus sentimentos logo após viver situações de stress, como a morte de um paciente”.

Suicídio, divórcio, reforma antecipada

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) considera que, apesar da falta de dados efectivos, “as taxas de divórcio, depressão e suicídio são maiores entre os médicos” do que em qualquer outra profissão.
A psiquiatra Antónia Frasquilho, afirmou, segundo o Diário de Notícias, que “os suicídios representam 38 por cento das mortes prematuras em clínicos”. O grupo de trabalho criado pela OM para avaliar a incidência de burnout pelo País deparou-se com um cenário mais grave do que o expectável.

Nídia Zózimo, que dirige esse grupo de trabalho, confessou que no terreno “a realidade é pior do que o que estávamos à espera”. A responsável afirma que “houve médicos que falaram da sua experiência e alguns disseram que se iam reformar por não aguentarem mais”. A ideia é corroborada por Carlos Arroz, do SIM, que disse, ao Diário de Notícias: “Deixam de conseguir suportar as condições de trabalho e a pressão constante porque a responsabilidade dos médicos não é partilhada”. O sindicalista referiu ainda “o aumento de processos por má prática, erros e conflitos no trabalho que se tem notado no gabinete jurídico do sindicato”.

Sindrome de burnout

O simpósio que decorreu em Lisboa contou com a participação da professora de Psicologia da Universidade da Califórnia, Christina Maslach. A especialista tem desenvolvido um longo trabalho de investigação em áreas sociais e, em particular, na síndrome de exaustão. Na sua apresentação esmiuçou o problema relacionando-fo com situações de “dificuldades de relacionamento, perda de entusiasmo, cinismo e ineficácia”. Um dos aspectos a ter em conta é a presença destas características em pessoas que não as tinham antes. Para Christina Maslach existem três fórmulas passíveis de serem aplicadas no local de trabalho e que podem contribuir para atenuar o aparecimento da exaustão.

São elas: “A estimulação de energia, envolvimento/reconhecimento eficácia”. A especialista traçou ainda outros cenários compatíveis com a exaustão: “A qualidade pobre do trabalho, uma moralidade baixa, onde se sobressaem questões como ‘porque estou aqui?’, ‘porque estou nesta profissão?’, absentismo, problemas de saúde, depressão e problemas familiares”. O trabalho de investigação que a psicóloga norte-americana tem desenvolvido levou-a a traçar seis estratégias para evitar este problema. Christina Maslach fala então da “necessidade de observar a forma como a pessoa exausta melhora no seu conjunto e não com uma pessoa em particular, avaliar o excesso de trabalho e controlá-lo, obter reconhecimento pelo trabalho feito, avaliar as relações sociais a confiança e ter em conta quando nos apercebemos que o local onde trabalhamos é injusto”.

Saúde e orçamentos

O simpósio sobre burnout decorreu em Março, em Lisboa, e alertou para as causas e consequências da exaustão

Numa altura em que o Governo fala em restrições orçamentais e o Mundo está assolado com uma crise financeira, o especialista em Saúde Pública Adalberto Campos Fernandes falou sobre a qualidade em saúde com orçamentos restritos e o modo como esse pode ser um contributo para desencadear síndromes de exaustão. O especialista começa por referir que “desinvestir em saúde leva a perda de qualidade de resultados e ineficácia na qualidade”, mais acrescentando que “os sistemas de saúde têm vindo a sofrer crescentes pressões relativamente à sua acessibilidade por parte dos utentes”.

Mediante este cenário de dificuldades financeiras, Adalberto Campos Fernandes desenha um possível futuro. No seu entender os próximos anos serão de “uma redefinição do modelo assistencial e incorporação dos médicos nas decisões”. O responsável considera ainda que “o caminho é o da empresarialização, que deve favorecer a coesão interna, a existência eficaz dos profissionais e efectivo reconhecimento do trabalho”. Na sua intervenção ficou claro que “deve ter-se sempre em conta que o fim último do sistema de Saúde é o cidadão”. O também gestor, com reconhecimento pela Ordem dos Médicos, referiu que no futuro deverá haver um enfoque maior “na gestão por objectivos, responsabilizar todos pelos resultados e ter políticas de transparência”. Os sistemas de informação poderão igualmente ser um instrumento útil na gestão do quotidiano dos médicos, contribuindo para a melhoria do seu trabalho e diminuindo as situações de stress, consequentemente de exaustão.

As más condições de trabalho, a falta de reconhecimento, a desorganização dos serviços e a falta de responsabilização podem ser causas de burnout.

“Os sistemas de informação podem facilitar o apoio à decisão, na diminuição do erro e na diminuição da burocracia, contribuindo para facilitar o trabalho e minimizar o risco”. A sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) será possível, segundo Adalberto Campos Fernandes, “através da transparência e responsabilidade social, melhoria de qualidade e da eficiência e políticas de saúde centradas no cidadão, garantindo a resposta às necessidades de saúde da população num contexto de equidade”. A lista de recomendações do especialista é longa e inclui ainda a “optimização na gestão dos recursos humanos e de um clima organizacional inovador e dinâmico, descentralização de competências, contratualização externa e interna, contratos de gestão pluri-anuais, monitorização e publicação regular de informação e avaliação de desempenho”.

Por fim, o orador quis sublinhar que “no sector da saúde é fundamental tomar medidas estáveis de organização e isso passa por políticas de gestão, desenvolvimento pessoal e profissional”.

AS CITAÇÕES DO SIMPÓSIO

“A Ordem dos Médicos considera essencial intervir nesta área. Estamos satisfeitos por termos, com este simpósio, desempenhado o papel congregador de médicos e outros profissionais de saúde e de defesa dos interesses da sociedade civil. “

Isabel Caixeiro, presidente do Simpósio

“Ao preparar-me para este simpósio, dei comigo surpreendido ao perceber quantos de nós estão à porta do burnout sem dar por isso: médicos, professores, pequenos empresários, políticos. “

Couto dos Santos, presidente da Comissão Parlamentar de Saúde

“Na prevenção do burnout há uma relevância fundamental de modelos organizacionais que facilitem o trabalho em equipa e a partilha de responsabilidades. “

Ana Jorge, ministra da Saúde

“Estudos demonstram que o stress é tão mau para a saúde como a obesidade ou o tabagismo. Nos Estados Unidos da América o stress tem um custo económico de 300 mil milhões (em faltas, baixas e absentismo em geral). “

Christina Maslach, docente na Universidade da Califórnia

“Vivemos os tempos de constrangimentos orçamentais. O investimento em Saúde é o melhor que podemos ter, só que é para além das legislaturas o que não se torna atractivo em termos políticos. “

Adalberto Campos Fernandes, especialista em Saúde Pública

“Vários estudos referem o burnout como resultado da pressão crescente de tarefas administrativas e da falta de reconhecimento do desempenho do profissional. A falta de tempo para a vida privada só surge em último lugar dessa lista… “

Claude Wetzel, consultor em Anestesiologia
(Fonte: www. burnout.ordemdosmedicos.pt)