Sozinha com um Adolescente

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Sozinha com um Adolescente.

«A minha filha Joana, de 16 anos, está constantemente a provocar-me. Quando perco a paciência, proíbo-lhe as saídas ou corto a semanada, mas bem vejo que estes castigos não servem absolutamente para nada. Levanta-se entre nós um muro de incompreensão e temos cada vez mais dificuldade em comunicar», conta Isabel, uma mulher divorciada com a responsabilidade de educar, sozinha, a filha adolescente.

A rebeldia e o ataque às normas familiares próprias da adolescência e do consequente processo de autonomia não pressupõem ruptura ou ataque ao vínculo emocional com os pais. Para que não se criem muros de incompreensão e incomunicabilidade os adolescentes devem participar na definição de regras que possam fundamentar o poder exercido, neste caso, pela mãe e aceitá-lo.

Os jovens precisam de saber até onde podem ir, precisam de limites definidos e não há nada pior do que as regras arbitrárias ao sabor do estado de humor dos pais. Se as mães vivem sós, não beneficiam da partilha e apoio do pai na definição dos valores e das regras familiares e os jovens têm tendência a fazerem-se valer de argumentações inesgotáveis, tentando impor os seus desejos. Por vezes, culpabilizam ou fazem chantagem até levarem as mães a ceder por exaustão, pois não é fácil ser mãe sozinha a tempo inteiro, além de trabalhadora e dona de casa.

Encontrar um equilíbrio de abertura e firmeza mediada pelo afecto nem sempre é tarefa fácil e não há regras milagrosas. Manter um diálogo permanente com o jovem, tendo o cuidado de valorizar as coisas boas que os adolescentes fazem, não se deixar fragilizar pelas sucessivas investidas dos jovens e saber travar os argumentos a tempo, nunca esquecendo que, mesmo rebeldes e agressivos, não há ninguém de quem eles gostem mais do que de si.

A necessidade de um «pai de substituição»
Os vínculos aos pais como figuras privilegiadas de confiança e amor são importantes para as crianças viverem e crescerem seguras e na adolescência poderem iniciar os seus processos de autonomia e as escolhas afectivas de uma maneira saudável. Sebastião, de 15 anos, passa todos os dias com os seus companheiros. «À noite, quando lhe pergunto o que fez depois da escola, responde-me secamente: não tens nada com isso!», conta Luísa.

Todos os jovens gostam de cultivar «jardins secretos», por isso, as perguntas directas nem sempre são o meio mais eficaz para os pais ficarem a par de todas as actividades dos filhos. As mães que estão todo o dia fora de casa têm tendência para fazer inquéritos quando chegam, à noite. Os rapazes, por seu lado, não gostam de contar tudo à mães, por uma questão de afirmação da sua masculinidade.

Dar espaço ao jovem para falar livremente, interessando-se pelos seus amigos e interesses é normalmente uma meio eficaz para os pais se inteirarem da vida dos filhos. Se isto não resultar, pode pedir ajuda a um familiar ou a alguém amigo em quem o jovem reconheça alguma autoridade afectiva. É o caso de Marta, mãe de um jovem de 13 anos: «O Rafael adora o meu pai. Vão juntos ao cinema, aos museus… O meu filho considera o avô um pouco o pai que ele não teve».

Por vezes, desabafar com outras mães ajuda a perceber que o seu problema é o delas e que não são os seus erros de educação, mas sim os processos difíceis da adolescência que estão a dificultar a relação. Lembre-se que crescer custa.

Aprenda a estabelecer limites
A aceitação da autoridade passa essencialmente pelo respeito e pela aceitação da dependência afectiva. Mas as mães também devem saber respeitar os limites dos filhos. Evite, por exemplo, entrar no quarto deles sem primeiro bater à porta, mostrando que respeita a sua privacidade. Combinem a altura do som da música que eles ouvem no quarto, é uma boa forma de o ajudar a aprender a respeitar e a preocupar-se com os outros. A mãe é uma figura protectora, o que facilita as relações e o respeito pelas regras. Negoceie as atitudes mais excêntricas, como calças rotas, cabelos pintados ou tatuagens, a que os grupos tanto fazem apelo.

Lembre-se que o jovem está a afirmar-se, adoptando outros modelos fora da família. Proibir só por proibir não resolve nada, o que não quer dizer que deva estar sempre de acordo. Não abdique do bom senso e das regras de conduta que estabeleceu para a sua família. Pode manifestar o seu desacordo e explicar as suas razões, sem ter que cair em chantagens emocionais.

Outro ponto de discórdia comum é a semanada. Jorge, de 14 anos, é mais cigarra do que formiga: «Em apenas dois dias consegue gastar tudo o que lhe dou, na companhia dos amigos», queixa-se Anabela. «Estou até hesitante em abrir-lhe uma conta bancária». Na sociedade consumista do apelo ao ter, é difícil aos jovens gerirem o seu dinheiro e é preciso ajudá-los a compreender o seu valor. Não lhes facilite dinheiro em excesso. Algumas mães têm tendência a dar tudo o que podem e o que não podem, muitas vezes por sentimentos de culpa ou por acharem que são piores mães do que outras, mas isso não ajuda os jovens em nada.

Muitas vezes, os adolescentes sentem inseguranças e experimentam sentimentos de solidão que prejudicam o seu desempenho escolar. De há alguns meses para cá, a Rita, de 17 anos, começou a ter más notas na escola. Isabel, a mãe, preocupa-se mas explica: «eu chego a casa muito tarde, à noite, e raramente temos ocasião de falar sobre o assunto». É fundamental que a mãe arranje algum tempo para conversar e dar atenção à filha. Em vez de dar importância só às notas e à escola, há que estabelecer outras cumplicidades, como saídas de lazer desportivas e culturais, maior comunicação e atenção e mostrar interesse pelas suas tristezas e alegrias

Cúmplice, sim… colega, não!
Desde a infância que Carlos, de 15 anos, se habituou a tratar a mãe pelo nome próprio: «Entendemo-nos às mil maravilhas e ele considera-me mais uma irmã do que a mãe», conta Maria. A mesma relação forte existe entre Sara, de 16 anos, e a sua mãe Virgínia: «a Sara é uma miúda adorável, sempre cheia de atenções. Eu incito–a a sair com as amigas, mas ela acha que a sua melhor amiga sou eu».

Entre os jovens e os pais não deve haver confusão de papéis e é saudável que haja conflito de gerações, que ajuda os jovens a encontrar modelos e a ensaiar os seus processos de autonomia.

Uma proximidade excessiva entre mães e filhos pode prejudicar a separação e individuação do jovem e prejudicar a sua futura vida afectiva. É a mãe que deve ser o adulto em casa, é ela que dá protecção e carinho e em quem os filhos, mesmo contestando, confiam e amam. Não caia no erro de pedir ao filho mais velho para fazer esse papel.

Os filhos de pais divorciados acalentam sempre a esperança de voltar a reunir os pais, ainda que não se manifestem. «A Mariana, hoje com 13 anos, tinha seis quando nos divorciámos», conta Fernanda. «Desde então, pensa que um dia voltaremos a ser uma família e, quando lhe explico que isso é impossível, zanga-se comigo».

Com o passar do tempo, a maioria dos adolescentes acaba por aceitar a situação, uma tarefa que é facilitada se os pais continuarem a desempenhar o seu papel afectivo e protector para os filhos e se respeitarem e apoiarem mutuamente como pais, apesar de já não formarem um casal.

Se estiver a ser muito difícil gerir a situação, o melhor é pedir a ajuda de um especialista, um psicólogo, que a ajude a si e aos seus filhos a lidar melhor com a família que têm, ainda que esta possa não ser a que eles idealizaram.

3 PERGUNTAS a Dra. Manuela Cruz – psicóloga clínica

A ausência do pai provoca forçosamente uma falta de referências?

As referências e os processos de identificação são familiares, sociais e culturais, por isso, nem sempre a ausência dos pais pode provocar falta de referências, sobretudo se a mãe e o meio mediarem esta lacuna e desempenharem o papel organizador da identidade masculina. Contudo, a necessidade de vínculos parentais seguros e os processos de identificação durante o crescimento tornam o pai e a mãe figuras importantes, pelo que o sentimento dos filhos face a essa ausência e o modo como cognitiva e afectivamente lidam com as ausências paternas são factores a considerar. Os primitivos processos de vínculo e identificação requerem separação dos pais idealizados e a reaproximação dos pais reais, processo difícil se o pai está ausente.

A rapariga ou o rapaz têm a mesma percepção da autoridade paternal?

A percepção e aceitação da autoridade paterna está relacionada com o afecto e respeito que os filhos rapazes ou raparigas têm à figura paterna. Está relacionada com a qualidade relacional e a aceitação de regras e valores veiculados pelo desempenho paternal. Pais com relações próximas e calorosas com os filhos criam uma ambiência propícia à aceitação da influência parental.

O adolescente oriundo de uma família monoparental será tentado a reproduzir este esquema familiar?

O acesso ao estado adulto é complexo e implica dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, pelo que a identificação e reprodução de modelos não é só feita no seio da família. Na família monoparental o adolescente não tem as vivências positivas do afecto entre o casal parental que favorecem o contexto emocional e oferecem os fundamentos psicológicos essenciais para o processo de separação-individuação dos jovens, ao mesmo tempo que criam um contexto de segurança para a exploração e ensaio da autonomia afectiva do jovem e da escolha do objecto de amor.