Ter um filho – Ou não ter

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018

Ter um filho – Num mar de felicidade… Ou de dúvidas?

Carla., uma mulher de 31 anos, farmacêutica e bem casada, já não entendia nada. Não deveria sentir-se feliz, por ficar finalmente grávida? Não o desejava já há alguns meses? Não tinha sido uma decisão perfeitamente consciente? Bem, contente estava, mas por minutos. Agora que o médico lhe havia confirmado a notícia, ela sentia-se imersa num mar de confusões. Tudo o que se avizinhava lhe produzia dúvidas e mais dúvidas.

Seguramente que não iria ser uma boa mãe. O bebé tirar-lhe ia a sua liberdade fazendo com que ficasse aborrecida. Tão pouco tinha vontade de perder a sua bonita figura, nem ver como o seu corpo engordava lenta mas inexoravelmente. «O que me causava pânico era o problema de não poder voltar atrás», comentava mais tarde.

Tal como muitas grávidas, esta mulher envergonhava-se dos seus sentimentos negativos e pensava que ela era a única a tê-los. É claro que se calava; temia que ninguém a compreendesse e que todos a condenassem. A imagem da futura mamã eternamente feliz – com o »está de esperanças», como se dizia antigamente – nunca foi verdade, nem mesmo no tempo das nossas avós.

Não se é má mãe por sentir medos
Por muito que uma mulher o deseje, ter filhos traz confusão, sacrifícios e dependência, para não falar de outras dores de cabeça de índole material. Não se trata precisamente de temores infundados. E, como é evidente nenhuma mãe será considerada má mãe por os sentir. Só uma falsa ideologia impede as grávidas de expressar sinceramente os seus sentimentos mais controversos. As dúvidas e os medos são tão normais como a alegria, mas nem todas as mamãs os sentem com a mesma força.

Algumas, como Carla., sentem-nos sentindo-se culpadas por isso, enquanto que noutras predomina a ilusão de ter logo um filho. Curiosamente, as circunstâncias externas – como não são extremas – só desempenham um papel secundário. Poderíamos pensar que uma mulher solteira ou uma jovem com o companheiro longe, sentiria mais as vertentes negativas da sua gravidez, mas isto não funciona sempre assim.

Mais relevância tem o estado interior: a aceitação da própria feminilidade, a visão pessoal do futuro, a fé na sua própria capacidade… Também há muitas mulheres que não se permitem experimentar sentimentos negativos, seja por orgulho ou por vergonha. Segundo asseguram alguns psicólogos, o que mais nos impede de ser sinceros com nós próprios são as carências estereotipadas. Enquanto estivermos convencidos de que só mostrando determinado comportamento ou adoptando certa postura somos bons, necessariamente temos de reprimir todos os outros impulsos que não encaixam neste esquema. Estes impulsos reprimidos convertem-se em sintomas físicos e voltam a equilibrar a balança da sinceridade.

Supõe-se que por detrás dos típicos transtornos da gravidez, como náuseas e vómitos, escondem-se na realidade dúvidas e sentimentos de recalcamento. A circunstância de que quase todas as grávidas tenham estes sintomas, só confirma para os especialistas que têm estes sentimentos e que os reprimem. Ao compreender estes mecanismos, a mulher adquire as ferramentas para encarar os seus conflitos no futuro:

Converter-me em mãe será o acto mais relevante da minha vida. Vou ligar-me para sempre a um ser que não conheço, mas de quem serei responsável nos próximos anos.

A minha vida mudará, a minha actividade profissional ressentir-se-á, deixarei de lado alguns dos meus projectos, talvez fique a depender economicamente de outra pessoa.

Certamente, a minha relação com o meu marido mudará e, não sei se para melhor se para pior.

Tenho a certeza de que o acto de ter um filho mobilizará a minha capacidade de amar e terá que aceitar as inevitáveis renúncias.

Não importa que isto seja um mar de dúvidas. Ter um filho não é para menos. Além disso, parte da minha capacidade emocional está alterada pelas mudanças hormonais que acontecem no meu corpo. Tenho de ser um pouco indulgente comigo mesma.

Uma viagem sem retorno
Qualquer um podia alegar que, de antemão, a mulher conhece as renúncias que concerne ter um filho. É verdade, mas a teoria nunca alcança a realidade da prática. A gravidez é uma viagem sem retorno; não se pode estar «um pouco grávida», a ver que tal vai a coisa. Essa sensação de se sentir grávida, a impossibilidade de mudar de opinião, é o que assusta tanto as mulheres. Ao fim dos primeiros três meses as dúvidas podem ceder. Supera-se um pouco o processo de adaptação que converge na convicção de poder aceitar esse filho, de estar de acordo com a sua existência.

O segundo trimestre da gravidez, caracteriza-se pelos primeiros movimentos do feto. Para a mãe, o seu filho começa a ter forma, a ser real. A partir de agora os seus pensamentos deixam de girar em roda de si própria e concentram-se no futuro bebé, na sua saúde e no seu bem estar. pouco a pouco começará a amá-lo e a identificar-se com o seu estado. Se as ecografias, as análises de sangue e as demais explorações médicas dão resultados tranquilizadores, esta Segunda fase da gravidez pode ser muito mais agradável.

Durante as semanas que antecedem o parto, a mulher prepara-se interiormente para se separar do seu filho. Enquanto que algumas grávidas tardem em aceitar o seu filho, outras não querem soltá-lo. Depois de nove meses de íntima união, inconscientemente retêm o bebé. Em casos extremos, isto pode atrasar o parto, alargá-lo ou inclusivamente fazer com que necessitem de uma cesariana. À parte estas excepções, o normal é que pouco antes do parto os pensamentos da mulher se tornem a concentrar na sua própria pessoa. Dentro de muito pouco tempo será mãe e ainda não sabe se saberá bem desempenhar o seu papel. «Se inclusivamente, antes do nascimento, sentiu dúvidas quanto a esse filho – pode interrogar-se – , como vou poder amá-lo quando o tiver a meu lado?».

Aceitar o medo é sinal de maturidade
As grávidas deveriam tranquilizar-se, já que não existe nenhuma razão para que elas sejam piores mães que as outras. Ao contrário: que uma mulher sinta medo e dúvidas só demonstra que o filho que espera não lhe é indiferente; mas sim que lhe importa muito. Tudo na vida tem os seus prós e os seus contras, o mundo inteiro compõe-se de pólos opostos. Frio e quente, dia e noite, dar e receber. Porque será diferente a decisão de ter um filho? E mais, estar consciente dos próprios sentimentos ambivalentes e dominá-los constitui um claro sinal de maturidade emocional.

Seria desejável que a mulher pudesse falar sobre estes sentimentos, se possível, com outra mulher que tenha filhos e se mostre tolerante. Só se conhecermos e aceitarmos as nossas ambivalências poderemos tolerá-las e superá-las. Caso contrário, poderiam encontrar uma válvula de escape nalgum sintoma físico ou perdurar até depois do parto. E ainda… quem não conhece uma mamã que, tendo o seu bebé nos braços, se recorde da dúvidas dos primeiros meses?