Uma causa de demência prevenível e tratável

Revisado por Reinaldo Rodrigues (Enfermeiro - Coren nº 491692) a 12 dezembro 2018

Uma causa de demência prevenível e tratável

O tema das doenças neurocognitivas associadas à infecção por VIH/sida esteve em destaque na reunião anual Remark’ 10, organizada pela Abbott Laboratórios. O professor Francisco Antunes falou sobre as causas e consequências desta “nova” realidade.

No passado dia 17 de Abril, decorreu, em Cascais, a reunião anual Remark’ 10. O encontro promovido pela Abbott Laboratórios deu realce ao tema Body & Mind, “o qual foi dedicado, quase em exclusivo, às alterações neurocognitivas associadas à infecção VIH/sida”, explicou Francisco Antunes, director do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de Santa Maria.

A investigação contínua em torno do tratamento do VIH/sida conduziu à descoberta de terapêuticas que permitem aos doentes ter uma qualidade de vida elevada. O infecciologista salientou que a “terapêutica anti-retrovírica de combinação (TARVc) veio modificar radicalmente a expectativa de vida dos indivíduos com infecção VIH/sida”.

No entanto, Francisco Antunes sublinha que há ainda um percurso a fazer, nomeadamente nas doenças neurodegenerativas associadas à infecção. “Alguns problemas não estão ultrapassados. A sida ainda é a principal causa de morte. E outros têm vindo a emergir, principalmente aqueles relacionados com o envelhecimento desta população, em particular as doenças cardiovasculares, renais, hepáticas, ósseas e do sistema nervoso central (SNC). Precisamente as doenças neurocognitivas associadas à infecção por VIH (HIV-Associated Neurocognitive Disorders – HAND) constituem um problema real, representando um desafio sério para o futuro destes doentes”, sublinha o especialista.

Relativamente às HAND, o problema prende-se com mau conhecimento dos mecanismos patogénicos, dos factores de risco e das estratégias de prevenção e terapêutica.

Muitas Causas

De acordo com o especialista em Infecciologia, o sistema nervoso central “é o maior alvo da infecção por VIH. A infecção crónica deste compartimento do organismo pode levar a complicações neurodegenerativas”. A demência é a forma mais grave da alteração neurodegenerativa associada à infecção pelo VIH/sida. “As consequências são devastadoras para o doente”, afirma Francisco Antunes. E acrescenta: “Muitos factores podem contribuir para estas complicações neurológicas, apesar da eficácia elevada dos anti-retrovíricos disponíveis para suprimirem, no compartimento periférico, a replicação vírica.

Entre aqueles factores destacam-se a insuficiente penetração no SNC de alguns dos anti-retrovíricos, a replicação vírica mantida e a imuno-activação, neste compartimento central, e as comorbilidades – co-infecção, como a hepatite C e o envelhecimento desta população”.
Não obstante, os problemas neurocognitivos associados a esta infecção podem ser tratados e prevenidos, assinala o médico. “A identificação dos doentes em risco e o desenvolvimento de estratégias para prevenir e tratar estas disfunções são uma das prioridades, no âmbito clínico e da política para a Saúde, no contexto da infecção VIH/sida”, rematou.

REMARK’ 10

O encontro discutiu ainda outros temas, como “avaliação neurocognitiva nas mulheres infectadas com VIH”. Este tema foi apresentado por Renata Margalho, do Hospital de Curry Cabral, em Lisboa. “O VIH no feminino” foi introduzido por Teresa Branco, do Hospital Fernando da Fonseca.

A “adesão à terapêutica ARV” e os “desafios da adesão no século XXI” foram outros assuntos em destaque. No primeiro teve a palavra Saraiva da Cunha, dos Hospitais da Universidade de Coimbra, enquanto os desafios da adesão foram apresentados por José Vera, do Hospital de Cascais. O Remark teve a primeira edição em 2008 e já debateu temas como adesão, resistência, lipodistrofia, populações especiais e Saúde Mental.